Vidas em contos

(por Rita Prates)

Forest Gump tupiniquim

Forest Gump brasileiro é um senhor que conheci e que foi o nosso guia em uma viagem aos Estados Unidos, foi hilário conviver com ele.

Nosso primeiro contato foi em um churrasco de integração, íamos viajar quatro casais para Miami e Orlando. O dono de uma agência de viagens nos vendeu o pacote e se ofereceu como guia no passeio.

Conversa vai, conversa vem, fui apresentada ao nosso futuro guia. Ele era baixo, possuía uma careca na altura da testa e nas laterais viam-se alguns fios teimosos descendo pela nuca, o rosto envelhecido correspondia a aproximados setenta anos,porém o que mais me chamou a atenção foi a barriga saliente que levantava a camisa forçando o ultimo botão a sair cabisbaixo de sua casa. Para completar o visual, usava transpassada por cima da camisa uma bolsa de couro puída e cheia de papeis amassados. Olhei para sua esposa e me lembrei de que ela havia me dito que tinha feito quarenta e sete anos, era bonita, suave e tinha um jeito meigo que conquistava todos.

No transcorrer do churrasco o nosso guia foi se empolgando e centralizou a conversa ao seu redor, era bom de fala e um ótimo contador de histórias. Começou nos relatando a sua trajetória de vida, disse que quanto jovem foi morar na Europa, trabalhava como motorista de uma empresa e um dia de muita sorte o mandaram acompanhar um ex-presidente brasileiro e sua esposa em Paris.

Tornou-se amigo do casal. Ele sentindo-se inconformado com a feiura do patrão e a beleza da mulher, teve o desplante de falar para ela que não devia ter se casado com um homem tão feio, sendo ela uma mulher tão bonita. A resposta veio de imediato, ela não se importava com a beleza exterior e sim com a beleza interior do esposo. Afirmou que o marido era um homem muito educado, fino e desapegado dos caprichos financeiros dela, amava-o pelo o que ele fazia por ela, dava-lhe carinho e conforto.

No outro dia o ex-presidente chamou-o no escritório. Nesse ponto o guia parou de falar para provocar um ar de suspense, sorriu de lado ao ver que as pessoas estavam curiosas.

-Comecei a suar frio e entrar em pânico, disse olhando para os ouvintes atentos. – Agora estou perdido, vai me mandar embora, pensei apavorado. Qual não foi a sua surpresa quando o diplomata falou que ele sabia o que havia dito sobre a sua feiura. Afirmou que eu o tinha ajudado a acabar com uma dúvida de anos de casamento. Ele também questionava porque a sua mulher, tão linda, tinha o aceitado como marido. Tudo esclarecido, por amore por admiração. Agora, graças ao motorista, sentia-se mais feliz, e como recompensa iria leva-lo para ser o seu chofer na embaixada nos Estados Unidos.

– Que homem de sorte eu sou! Exclamou Forest olhando para todos. – Também dou sorte, veja a minha mulher, depois que casamos ela fez o doutorado, conheceu vários países e tem uma vida de conforto e diversão. Nada como uma indireta bem no cerne da questão

– Mas a minha história ainda tem mais surpresas, disse ele sorridente. – Na embaixada conheci um árabe que se tornou meu amigo e me levou para estudar nos Emirados Árabes por sua conta, desde que eu fizesse psicologia, e para completar deu-me uma gorda ajuda financeira para as despesas. Depois de dez anos e regressei ao Brasil.

– Vejam amigos como tenho luz, continuou o guia. – Logo que voltei fiquei sabendo que a Petrobrás precisava de um brasileiro que falasse árabe e inglês, lá fui eu ajudá-los. Como me destaquei, ofereceram-me um cargo na área de relações internacionais, viajei pelo mundo discutindo contratos e fechando negócios, aposentei na empresa com um baita salário.

Todos o olhavam incrédulos, eu não pude resistir e, com ar de deboche, solicitei que passasse a mão no meu braço para ver se ele transferia um pouco de sorte para mim. Ele desconsiderou a minha ironia, mas seguiu contando casos surreais. Jurou que fora convidado para festas com vários artistas nacionais e internacionais, e que passeou de barco com um ganhador do Oscar, mas não falou qual. A esposa confirmava as histórias balançando a cabeça e dando sorrisos enigmático.

Contou que casais o procuravam para orientações financeiras e de relacionamentos, inclusive iria nos apresentar uma família que ele ajudou. O homem era um feirante e se tornou um empresário rico graças as suas dicas de finanças. Terminou a narrativa dizendo que fazia remédios com plantas raras que curavam até câncer.

Partimos para o planejamento da viajem, ficou acertado que ele seria o nosso guia, pois já tinha viajado para Orlando mais de cinco vezes, conhecia tudo e nos levaria nos melhores passeios. Os três casais ficaram tranquilos e ansiosos para conhecer Disney e se divertirem.

No dia da viagem nos encontramos no aeroporto no horário combinado e, para a nossa surpresa, deparamos com mais catorze pessoas aguardando o nosso guia. Constrangimento geral, ele na maior cara de pau falou que haviase esquecido de falar que iriam mais pessoas no grupo, inclusive o empresário ricaço com a mulher e dois filhos.

– Tudo bem! Seguimos em frente, porém quando desembarcamos no aeroporto de Miami cada casal alugou um carro e o grupão optou por uma van. Na saída do aeroporto começou o drama, nos perdemos do nosso guia. Os três carros pegaram a estrada comum GPS que nos deixava desorientados, siga a direita, vire no próximo contorno, só que não dava, quase sempre passávamos do lugar indicado, recalcular, novamente recalcular e assim os três carros rodavam perdidos por horas na estrada.

Para fechar com chave de ouro o nosso primeiro dia na América tivemos um acidente quando faltavam poucas quadras para chegarmos ao hotel. O carro de um do grupo freou bruscamente e o carro de trás bateu nele com força, perda total, sem vítimas. O resultado disso tudo é que passamos o resto da tarde e a noite por conta do reboque que não veio. Quando fomos procurar o guia para nos ajudar, ficamos sabendo que ele também havia se perdido no caminho, chegou uma hora depois de nós. O guia não conseguia se comunicar pelo telefone em inglês com a concessionária, alegou que não ouvia direito e, para finalizar, ele se perdeu quando foi nos resgatar na via.

No outro dia fomos fazer umas compras antes de irmos para os parques. Compra aqui, compra ali, compra acolá, uns demoram mais, outros ficam emburrados, nada de diversão, só sacolas e mais sacolas. Os americanos não entendiam o inglês do nosso Forest, quem socorria arrastando um inglês básico era sua esposa e os rapazes da família, pouco simpáticos e muitas vezes ignoravam os pedidos de ajuda.

Quando íamos aos parques o guia se perdia e nos fazia rodar horas para chegarmos ao local, sendo que estávamos a dez minutos do hotel. Resolvemos nos separar do grupo e fazer o nosso próprio roteiro de passeios para nos divertirmos sem estresse. Em um parque da Universal, lindo por sinal, deparamos com um banco, sapatos e uma maleta do personagem do filme Forest Gump. Tiramos fotos sentados como se fôssemos ele, mas quem deveria se incorporar e assumir a verdadeira identidade do personagem seria o nosso guia, o grande e magnífico Forest Tupiniquim Gump.

Comentários entre nós pelos corredores -Estranho um guia que morou anos na América e na Ásia não conseguir falar inglês corretamente e nem meia boca, que trabalhou com diplomatas e também na área de relações internacionais de uma grande multinacional se vestir tão mal, sempre com uma camisa curta deixando aparecer sua barriga proeminente, e sobre ela uma bolsa velha a tiracolo. Ele disse que era a quinta vez que vinha a Orlando e se perdia sem parar, não sabia que não dava para ir a dois parques no mesmo dia e, para completar, havia uma festa das bruxas em um parque que havíamos comprado os ingressos, mas não poderíamos participar porque a entrada era com convite especial.

Quando retornamos a Miami programamos chegar cedo para passearmos e conhecer um pouco da cidade. Ledo engano, seguimos em comboio, e não é que o Forest resolve entrar em mais um Outlet próximo a Miami. Estacionamos, descemos, compra daqui, compra dali e quando retornamos aos carros descobrimos que tinham entrado na van e roubado todos os ipods e ipads. Chamaram a segurança, vêm os guardas e dai-lhe horas de espera, nada resolvido. Chegamos a Miami a noite, nos hospedamos em um hotel de quinta categoria cercado de prostitutas, por fim, deprimidos, fomos dormir sem jantar.

Na volta Forest Gump teve a cara de pau de falar que iria fazer um encontro para recordarmos a nossa divertida viagem. Afirmou que era sensitivo, que viu na viagem que os pequenos problemas que passamos foram causados pela nuvem negra que nos acompanhou por todo o trajeto. Nuvem criada pelos pensamentos de inveja dos amigos que não foram conosco, eles eram os culpados pelos danos que nos causou, mas devíamos perdoá-los para dissiparmos a nuvem de nossas cabeças. Ainda tivemos que ouvir essa pérola na despedida.

Pensei com os meus botões, se ele era tão esperto, vidente, porque não soprou essa nuvem negra do nosso caminho e nos mandou um sol brilhante para alegrar o nosso passeio.

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 22 de julho de 2016 por .
%d blogueiros gostam disto: