Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas Parte 4 – Kátia II

Depois da minha longa conversa com a garota de programa me transformei, me libertei, e cada dia estou mais safada e sedutora. Agora, cá pra nós, benzinho tinha razão, eu era um fracasso. Casei virgem e inexperiente, e para piorar o meu desempenho só ouvia críticas e deboches de quem deveria me ensinar a arte de amar.

Assumo que eu era péssima de cama. O meu desempenho melhorou mil por cento graças a minha coragem de mudar, de procurar ajuda, e ter a sorte de encontrar uma profissional do sexo que também era psicóloga. Hoje em dia existem vários cursos ensinando como seduzir o companheiro sem precisar apelar para prostitutas. Vale a pena fazer, tenho certeza que vai se divertir.

Mantenho o meu casamento mesmo sentindo apenas amor pelos meus filhos. A minha relação afetiva com o meu marido se resume a um contrato. Tenho de tudo, luxo, lazer e status. Procuro preservar esta sociedade pelos dividendos que recebo.

Ele está indo muito bem no trabalho e com as mulheres. Descobri no bolso do seu terno um bilhete de uma garota agradecendo o encontro, o presente e que esperava ansiosa o seu regresso. Li, dobrei e o guardei no mesmo lugar em que o encontrei. Não falei nada, desprezei a informação, mas passei a luxar mais, obrigando-o a gastar o dobro comigo e com as crianças.

Depois de ter encontrado o bilhete resolvi que eu também teria a minha vida sexual a parte. Estava cansada de ser usada, queria me vingar, talvez de mim mesma. E a ocasião surgiu logo em seguida. Estava em reunião da diretoria quando vi um par de olhos gulosos nas minhas pernas, tentei me recompor, puxei a barra da saia para baixo, mas roupa de malha justa costuma ser teimosa e quer sempre deixar à mostra coxas saudáveis protegidas por meias finas. Ao término da reunião o espião de pernas tratou logo de se aproximar.

– Venho te observando há algum tempo e fico admirado com as suas colocações nas reuniões, são claras e objetivas, disse o espião com a voz sedutora. – Posso acompanha-la até a sua sala?

Claro que aceitei, não pelo elogio e sim pela insistência do olhar no conteúdo do vestido. Novas investidas foram acontecendo, e como não poderia deixar de ser, estendíamos os nossos papos para um barzinho calmo e agradável no extremo oposto da cidade.

Tivemos que viajar a negócio pela empresa e aproveitamos para trocarmos confidências. Ele me contou da filha e de um casamento de quinze anos bastante enfadonho. Descontraídos com a desobrigação de termos alguma obrigação, e ligeiramente embriagados fomos para a varanda do apartamento dele tomar o último drink. A brisa do mar me acariciava o rosto e levantava brincalhona o meu vestido mostrando as minhas pernas bronzeadas.

Envolvida pela cumplicidade da noite deixei que a mão doce e macia do meu colega descesse suavemente entre as minhas pernas e subisse até os meus seios. Não resisti aos abraços e beijos, apliquei três lições de uma só vez e me entreguei sem culpa.

Belo começo para uma nova e infiel esposa, principalmente para alguém que sempre se sentia um fracasso como mulher. Tornei-me mais segurança, passei a ter prazer em uma relação e achar agradável e gostoso sentir-me completa. Como bons colegas de trabalho e de cama fomos eliminando aos pouco a monotonia dos nossos casamentos e dando asas as nossas imaginações.

Estava tudo perfeito demais nestes oito meses de encontros clandestinos, muito sexo e diversão nas tardes de “visitas a empresas”. Porém um tremor de seis graus centígrados na escala Richter nos afetou, foi quando o meu querido gerente quis planejar algo fora do combinado entre nós. Segundo ele deveríamos conversar com os nossos cônjuges sobre o nosso relacionamento, depois propormos uma separação amigável. Para arrematar, deixaríamos os nossos pobres e traídos parceiros com os nossos filhos, e após o divórcio casaríamos imediatamente e viveríamos felizes para sempre.

Correu um frio na minha espinha, uma tremedeira baixou em mim como um caboclo em um terreiro espírita. Após um esforço sobrenatural falei, – Você está ficando louco?

Ele me olhou esquisito, com a cara de quem não sabia em que parte eu não havia entendido o plano.

– Qual foi o item que você não entendeu? Venha, vou explicar-lhe novamente cada ponto. – Disse-me ele calmamente.

Olhei bem nos olhos dele e disparei a rir nervosa e falei – Me perdoe, mas é você que não entendeu nada do que estamos fazendo até agora. Nós estávamos entediados com os nossos casamentos, cheios da rotina, mas isso não significa que devemos deixar as nossas famílias e nos divorciarmos.

Ele me lançou um olhar furioso e gritou, – Você está querendo dizer que não me ama? Que é tudo brincadeirinha? Distração para matar a monotonia?  Que sou objeto de prazer?

Esperei que ele tomasse ar e completei. – Eu tenho prazer com você, gosto dos nossos encontros, das nossas maluquices, mas eu não quero mais do que isso, entende! Apesar de todo o tédio de anos de casada, eu não vou me separar do meu marido e nem dos meus filhos. Mesmo que você modifique o item três, a resposta é não. Vou tentar segurar no “até que a morte nos separe”, não foi isso que você jurou no dia do seu casamento?

– Chega! É o fim! Gritou apontando o dedo para mim. A sua fala mostra claramente que você me usou, que eu fui um simples objeto de prazer, um brinquedo na cama, dá próxima vez pegue um stripper, que não lhe criará problemas. Vestiu-se rapidamente e saiu que nem uma bala, mas ainda deu tempo de alcançá-lo na escada e exigir que me deixasse no Shopping para pegar o meu carro.

Deste dia em diante fui tratada como uma inimiga. Evitava cruzar comigo nos corredores e nas reuniões era seco e agressivo. Após cinco meses de cara fechada começou a me cercar, queria se encontrar comigo para colocar alguns pontos nos is. Fomos a um restaurante discreto, porém fui preparada para a nossa reunião extraconjugal, pedi que ele me ouvisse até o fim, sem me interromper.

Tentei mostrar a ele que não queria me envolver emocionalmente, queria curtir somente o desejo da carne, do prazer, e não penetrar nas profundezas do coração. O melhor seria não nos vermos mais a sós, pois os nossos planos de vida eram diferentes. Era perigoso reatarmos, mais tarde poderiam ocorrer novos conflitos e a artilharia viria pesada, destruindo o meu frágil casamento, nada de riscos.

Se estiverem pensando que eu me assustei, que me encolhi na procura do meu eu mulher, se enganaram. Estou ótima, cuido demais da minha aparência, potes de cremes caros e milagrosos, academias e salões de beleza. Compramos um apartamento chiquérrimo em um bairro nobre da capital, viajamos diversas vezes para o exterior e as minhas filhas estão cada dia mais cheias de mimo.

O meu marido continua gentil com o sexo oposto, participa ativamente na manutenção das mulheres do Planalto Central. Quanto a mim, para ficar sempre atualizada sobre qualidade me envolvi com um gerente de Controle de Produção. Nós temos algo em comum, não queremos misturar família com prazer, procuramos manter os nossos lares longe de quaisquer ameaças e devaneios.

– Tempo, amigas, tempo… Estou esgotada, falei muito de mim, falei o que eu nunca imaginava que sairia de minha boca, sinto-me mais leve e disposta a ouvi-las, mas antes de encararmos mais uma complicada colega de angustia, vamos fazer um lanche.

Após uma circulada de tira gosto e sucos, todas se posicionaram em suas poltronas dispostas a ouvirem a próxima colega. Heide começou a falar como se estivesse sozinha em um confessionário.

 

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Publicado em 15 de julho de 2016 por e marcado .
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