Vidas em contos

(por Rita Prates)

Santa Casa, Santo Causo

Todas as vezes que passava pelo hospital da Santa Casa, cuja entrada principal vivia repleta de pessoas sofridas, tristes e ansiosas aguardando a hora de visitar os seus entes queridos, eu tinha vontade de falar com elas, de pedir-lhes que não perdessem a esperança de uma cura.

Estava fragilizada com a doença da minha avó que havia quebrado o fêmur e tivera complicações que nos assustaram e nos deixaram sensíveis ao sofrimento e à morte.

Tudo naquele hospital cheirava a éter, cheirava a dor, cheirava a tristeza, porém, certa tarde, fui surpreendida por um som diferente, nunca ouvido nos dois meses em que estávamos recolhidos naquele ambiente cinzento. Era um som melodioso, sublime, que vinha da sala da enfermaria, que vinha dos enfermeiros, antes tão sisudos e agora tão alegres e tão descontraídos.

Aproximei-me devagar, por curiosidade, por desejo de sorrir também, por vontade de me sentir mais leve. Quando olhei para dentro da sala percebi que havia mais curiosos, e que nas minhas costas vinha mais gente seguindo o som da flauta mágica das gargalhadas.  Todos queriam um pouco de leveza em um ambiente tão pesado, todos queriam compartilhar de um pouco de felicidade.

Os alegres enfermeiros quando viram tantas pessoas ansiosas por momentos de descontração fizeram um gesto com as mãos para que nos aproximássemos, e antes que pedissem desculpas pelo barulho, ouviu de uma exausta acompanhante que lhes contassem qual fora o motivo para tantos risos.

Um enfermeiro jovem de traços delicados e olhos profundos resolveu tomar a palavra e relatar os fatos que haviam ocorrido no décimo primeiro andar do hospital. Era o momento ideal para interpretar, afinal só representava para o grupo de teatro e jamais tiveram uma platéia tão carente de risos.

– Ok! Contarei para vocês um caso tragicômico que ocorre no andar de cima. Perdoe-nos por relatar um fato real de um paciente, mas foi tão divertido e fora da normalidade que acredito que o rapaz não se importará.

– Olhe enfermeiro estamos aqui há semanas e precisamos de causos para nos distrair. Não fique ressabiado, conte logo para nós, queremos também sorrir, queremos esquecer as nossas dores – disse uma senhora elegante encostada na porta.

– Vou contar, disse o enfermeiro. Parou um pouco e pensou: Hoje eu me consagro ator, mesmo que seja para um pequeno grupo de ouvintes. – Ontem a noite veio uma ambulância do interior trazendo um rapaz que havia sido atropelado e que tinha quebrado a perna. O rapaz tinha problemas mentais, e como no hospital psiquiátrico não havia sala de cirurgia e o seu caso demandava maiores cuidados, trouxeram-no para cá.

– É um jovem simpático, boa pinta, alto e extremamente risonho. Ele chegou em uma maca acompanhado de sua mãe. A velhota estava revoltada porque haviam amarrado o seu filho na cama com tiras grossas, como se ele fosse um perigo para as pessoas.

– Coração de mãe vocês já viram, acaba fazendo besteiras por amor. Não é que ela soltou todas as tiras que prendiam o rapaz e começou a dar-lhe uma bronca por ter se machucado. Não teve outra, o cara começou a bater na mãe, gritava que ela o havia colocado de castigo e por isto ele tentou fugir e na fuga quebrou a perna. Tudo por culpa dela, só dela. Os enfermeiros foram acudi-la e aplicaram um tranqüilizante forte no paciente. Com o tumulto esqueceu-se de amarra-lo novamente.

No dia seguinte, quando a enfermeira Marta, aqui presente, entrou no quarto, deparou com o jovem sorridente que lhe deu bom dia e suplicou pelo café da manhã.

Após se servir fartamente ele sorriu satisfeito, e como agradecimento disse à enfermeira que lhe daria um orelhão.

– Vou te dar um orelhão porque foi boazinha comigo, foi gente fina, amiga. Venha cá, quero te presentear.

A moça se aproximou do rapaz. Quando ele a viu bem na sua frente deu-lhe tapas com as palmas das mãos nos seus ouvidos. Os tapas foram tão fortes que ela saiu cambaleando e caiu sentada no chão do banheiro. Quando se recobrou do susto e ainda com o zumbido terrível na cabeça ouviu, incrédula, o rapaz gritando:

– Ganhou um orelhão, ganhou um orelhão, vou te dar mais um orelhão…

A minha amiga, pobrezinha, conseguiu se erguer do chão com dificuldade e apavorada correu pelo corredor em busca de ajuda. Encontrou dois colegas e foi logo falando que havia levado um orelhão. Nervosa, gritava que havia levado um orelhão de um moço do apt.1101.

– Como doem as minhas orelhas, Deus do Céu, dói pra burro, droga de orelhão. Revoltada, contou o ocorrido e falou que não entrava mais naquele quarto enquanto o rapaz lá estivesse.

O babaca aqui resolveu cuidar sozinho da situação. Afinal sou homem ou não… Antes não tivesse questionado isto. Lá fui eu amarrar o danado do doido.

Quando entrei no quarto o rapaz estava sentado na poltrona e muito sem graça me disse que se sentia constrangido com o que ocorrera, que estava envergonhado e pediu-me que transmitisse mil desculpas a enfermeira. Seu olhar era de um cachorrinho abandonado e o jeito de falar era sereno e pausado.

Antes que eu falasse alguma coisa, ele me pediu que o levasse ao banheiro, pois queria fazer cocô. Amparei-o até o vaso e esperei ao seu lado que fizesse as suas necessidades. Quando acabou, levantou-se lentamente e num gesto rápido enfiou as mãos dentro do vaso e começou a amassar a bosta. Surpreso com o ocorrido, tentei tirar os braços do cara do vaso, puxando-o para trás.

– Vocês não podem acreditar meus amigos, não podem imaginar o que aconteceu, falou o enfermeiro para uma platéia às gargalhadas.

– Ai minha nossa! Gritou uma moça, não é possível que aconteceu o que estou imaginando …

Feliz em ver a plateia atenta, o ator procurou representar na íntegra, com gestos precisos, a cena vivenciada.

– Pois é, ao puxar o doido do vaso, ele virou-se para mim com as mãos repletas de cocô, pegou o meu crachá e começou a amassá-lo, e a esparramar bosta por todo o meu peito. Ao sentir suas mãos sobre o meu pescoço comecei a gritar:

– Por favor, moço, não faça isto!

– Por favor, largue-me!

Cada vez que falava, dava um passo para trás tentando me libertar de suas enormes mãos pesadas e fedorentas. Senti as minhas calças molhadas, quase me borrei também de medo. Com raiva da situação constrangedora e apavorado de ser enforcado pelas mãos de merda, empurrei o indivíduo com a pouca força que me restava. Ele cambaleou e caiu estatelado como uma abóbora no meio do quarto. Aproveitei o vacilo e corri para a porta de saída, mas ainda senti uma mão tentando me puxar a calça. Desesperado e fedorento sai pelo corredor gritando por socorro.

Foram chamados enfermeiros de outros andares para ajudarem a pegar o doido.

Estávamos todos agitados, histéricos, quando surgir a enfermeira chefe no corredor e começou a ralhar, mandar que todos se controlassem. Nervosa, avisou que ela acabaria com histeria coletiva e foi em direção do louco, ele tranquilo, estava encostado na porta aguardando a próxima vítima.

– Rapaz, disse-lhe delicadamente a enfermeira chefe, vim te ajudar, pode confiar em mim.

– Confio, falou o paciente com um belo sorriso nos lábios. Confio tanto que vou te dar um orelhão. Quer um orelhão?

– Claro! Falou a chefe animada.

Quando ela estava próxima ao rapaz uma enfermeira gritou que ele iria dar-lhe um sopapo nas orelhas. Incrédula, a moça se aproximou mais, porém quando viu dois braços abertos, sujos e fedorentos prontos para lhe atacar, virou-se em disparada e começou a correr ao encontro dos enfermeiros. O doido não se fez de rogado, mesmo mancando, correu ao alcance de sua vítima.

– A cena foi muito engraçada, o rapaz parecia o corcunda de Notre Dame todo sujo de merda mancando atrás da enfermeira chefe. Ela tropeçou e só foi salva quando o doido quase a pegou pelos pés.

Dominado, levaram-no para o apartamento. Nova surpresa, ao transpor a porta do quarto o doido empurrou os enfermeiros e se trancou por dentro.  Foi uma algazarra total.

– O que fazer?  Como tira-lo de lá? E agora José?

A solução caiu como uma luva. Uma senhora velhinha que acompanhava sua irmã e presenciou a cena, disse que sabia como resolver o problema, pois em casa tinha um tio doido que nem este. Ela encostou-se na porta do quarto do rapaz e carinhosamente pediu ao seu “filhinho” que a abrisse a porta para ela, porque a mamãe precisava dar-lhe leitinho. O silêncio era total, mortal. Quando ouviram o barulho da chave girando os enfermeiros não vacilaram, invadiram o quarto e pularam sobre o rapaz imobilizando-o.

Se vocês entrarem no quarto do cara vai ver um cartaz enorme avisando que ele é um doido perigoso, que não pode ser desamarrado. Mesmo com todos os cuidados, ele é temido e só é atendido por mais de um enfermeiro, traumas, traumas…

A platéia já havia rido muito do caso, estava descontraída, feliz, tanto quanto o “ator enfermeiro” pelo sucesso da apresentação. Uma velhinha levantou-se e erguendo ambas as mãos avisou que era a mãe corajosa que ajudou a prender o rapaz, e por isso poderia dar orelhões em todos.

– Venham rapazes, façam fila que irei dar orelhões em vocês…

– Viva os orelhões… Falavam descontraídos os acompanhantes, antes tão tensos e agora tão relaxados. Riam relembrando das cenas engraçadas. Voltaram para os seus quartos alegres, brincando de orelhão, leves, descontraídos, graças à história bem contada sobre um louco e divertido paciente.

– Nos chamem quando tiverem mais casos engraçados para contar. Você nos fez esquecer por alguns minutos do nosso cansaço. Obrigado por esta tarde divertida.  Falou uma moçinha tímida ao passar pelo enfermeiro.

Orgulhoso, o jovem ator agradeceu a todos pelos elogios a sua performance e pensou: Por que não montar um grupo de teatro no hospital e tentar alegrar os pacientes e seus acompanhantes? Leu que o riso ajuda na cura de muitas doenças e melhora o ambiente tenso de um hospital.

A sirene tocou e ele saiu sorridente para atender o paciente do apt 1101, mas antes chamou um colega para dar cobertura. Sozinho, Jamais!

 

 

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Publicado em 12 de julho de 2016 por .
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