Vidas em contos

(por Rita Prates)

Casados e Separados

Ela sorria enquanto eu a olhava incrédula. – Como podem viver juntos, mas não tão juntos assim, sem beijinhos, sem sexo? Perguntei intrigada.

– Isso mesmo, somos casados, mas estamos a mais de vinte anos separados de corpos, disse ela me olhando nos olhos. Não havia nenhum sinal de raiva ou vergonha ao falar de sua relação com o marido. Parecia que não se incomodava em contar sobre a sua vida, notei que havia em seu semblante certo ar de tranquilidade.

Falou que viviam felizes, eram chamados de casal vinte, tinham dois filhos lindos e uma bela casa onde gostavam de receber amigos. Um dia uma descoberta que destruiu o seu casamento, que lhe tirou os pés do chão, ele tinha outra mulher e um filho.

A sua vida virou de cabeça para baixo, choros, raiva, acusações mutuas, desculpas não aceitas. Os filhos se revoltaram contra ele. Ela definhou em sofrimentos, e indignada o mandou embora. Expulsou-o de casa para que fosse viver com a outra.

Ele foi, mas voltou. A mulher o devolveu, não o queria como marido. Ele tinha melhor desempenho quando fazia o papel de amante. No dia a dia era ranzinza, folgado e pão duro. Divertidas eram as visitas rápidas, sem muita cobrança e com fartura de sexo e grana.

Inconformada e não o aceitando de volta, tentou mais duas vezes se livrar do marido, mas a amante rapidamente o devolvia, como se ele fosse um produto falsificado ou com defeito de fábrica. Finalmente um basta. Cansado de idas e vindas ele decidiu, impreterivelmente, que não sairia mais de casa, mesmo que a esposa não concordasse com a sua presença.

– Jamais abriria mão da minha tão sonhada casa, era tudo o que eu tinha, construímos com muito luxo e suor, falou-me ela. – Como ele também fincou o pé e não aceitou morar em outro lugar, a solução encontrada para resolvermos o problema seria de partilharmos a mesma moradia, mas dormiríamos em quartos separados.

– Hoje acho que foi a melhor decisão para o nosso caso, disse ela num tom de voz mais baixo. – Vivemos na mesma casa, mas sem sexo a muitos anos, porém quem nós vê juntos acha que somos um casal por  inteiro, mas na verdade somos pela metade, apenas bons amigos.

Todos os dias tomamos café da manhã juntos, lemos os jornais e à noite assistimos televisão, cada um deitado na sua poltrona. Gostamos de fazer compras, de irmos ao cinema, de almoçamos fora aos domingos e, sempre que possível, viajamos por esse mundo afora curtindo cada momento.

– Tenho um companheirão, somos inseparáveis, é uma benção tê-lo ao meu lado, fala sorrindo apertando a minha mão. – Acho que se ainda fossemos na integra marido e mulher, talvez eu não estivesse tão feliz como estou agora, ele cuida de mim e eu cuido dele. Não sinto solidão como as minhas amigas que se separaram. Hoje elas estão sozinhas a procura de alguém que lhes façam companhia.

– Tenho setenta e sete anos, e desde o ocorrido perdi a vontade de fazer sexo e não senti falta. Ele deixou de dormir fora de casa, se tem ou teve casos não sei, mas comigo se comporta como um cavaleiro, sempre gentil e atencioso.  Depois de tudo, nunca mais brigamos, sou feliz assim, acredite, até os meus filhos acham que parecemos mais unidos e tranquilos.

Lembrei-me de um caso de uma moça que tinha um amante a mais de dez anos. Ela fez de tudo para que ele se separasse da esposa. Quando o indivíduo foi morar com ela, a casa caiu. Ele vigiava o que ela comia, regrava nas despesas e fazia mil cobranças.

– O pior, dizia dando belas risadas, ele ficava a noite inteira com um radinho de pilha ligado em um fone de ouvido, o som de vozes, mesmo baixo, a incomodava, deixando-a quase louca de agonia. Por mais que ela o implorasse, não desligava a porcaria do radio.

Conheceu o lado sombrio de viver com o amante, depois de noites mal dormidas e de desacertos que levaram o tesão a subiu no telhado. Vendo o caos que se estabeleceu em sua casa, resolveu eliminar o problema, e na primeira briga de arranca rabo expulsou-o de casa. Quando ele saiu do prédio, jogou suas roupas pela janela e o maldito rádio que se espatifou na calçada. Ele voltou para casa da ex-mulher, e ela reatou com o amante depois de uns meses. Jura que nunca mais quer representar o papel de esposa.

Casos como esses os conheço aos montes. Há casais que não se separam e cada um tem a sua vida amorosa ä parte. Alguns mantem o casamento devido à falta de dinheiro, concluem que o melhor é não ter que dividir pobreza, baixar ainda mais o padrão de vida. Outros não se separam por comodismo ou para não se engalfinharem na disputa do farto patrimônio.

Quando alguma amiga fala que a sua relação com o marido virou amizade, que vivem como irmãos, eu corto logo a conversa. Digo-lhe para recomeçar a sua vida com outro antes que se acostume e ache natural viver sem afagos e sem amor.

Não se pode sublimar o sexo, falava uma conhecida de minha mãe. Para ela sexo era prazer, vibração, encontro gostoso de corpos famintos, se não desse certo com esse sujeito, que fosse com outro, sozinha não poderia ficar.

Porém se sexo não lhe faz falta por problemas fisiológicos ou psicológicos, e mesmo assim não quer se tratar, então, nesse caso, o melhor será conservar o marido quase irmão ao seu lado, cuidando um do outro para fugir da solidão.

 

 

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Publicado em 5 de julho de 2016 por .
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