Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas Parte 3 – Kátia

Desde mocinha estudava e lecionava para operários de uma mineradora, e depois que me formei em engenharia continuei na empresa. Um belo dia surgiu um cidadão simpático que se encantou com toda a minha garra, e seduzida, cansada de lutar sozinha me entreguei ao amor, às juras e promessas vãs.

Tive duas filhas graciosas que me cercaram de alegrias e bastante fraudas. Larguei o emprego e dediquei-me a elas mais de uma década. Após duas doenças graves diagnosticadas como de fundo emocional, causadas por frustrações pessoal e profissional, tive o apoio do meu médico para retornar ao trabalho, apesar do meu marido discordar veementemente.

O meu digníssimo esposo sempre esteve atarefado investindo no seu futuro político, e com isso fui colocada em segundo plano. A família passou a servir só de fachada para usá-la em grandes eventos, para mostrar o quanto somos felizes, saudáveis e normais Na nossa relação faltam beijos e abraços, mas não faltam cobranças em relação aos afazeres da casa e ao cuidado com as crianças.

O trabalho veio para mim como uma benção. Na verdade eu não batalhei para consegui-lo. Não foi como milhões de brasileiros que saem de porta em porta entregando os seus currículos e mendigando uma oportunidade de trabalho. Como o meu marido ocupa um alto cargo público, as portas se abriram rapidamente para mim, favorecendo-me com uma ótima colocação profissional em uma empresa estatal.

Ultimamente estou em lua de mel comigo. O meu marido foi transferido para Brasília e não quis me levar por motivos óbvios, procurou me convencer a ficar, devido ao meu emprego e ao bem estar das crianças. Foi um alívio não ir, pois estou me sentindo leve e solta, pareço uma adolescente quando os pais resolvem viajar e a deixa tomando conta da casa.

Agora sou dona da minha vida. Toda gentileza do meu marido é para uso externo, entretanto para uso interno se transforma em um ditador. Exige a casa sempre limpa, nada fora do lugar, e se alguém deixa um sapato passeando pelo quarto ele fica uma fúria, parece que vivemos em um quartel general, tudo deve estar em perfeita ordem.

Essa leveza de estar só e ser dona do meu nariz fez com que eu gostasse mais de mim. Agora posso tomar decisões simples, mas de grande relevância para eu superar as minhas inseguranças. Passei a cultuar o meu corpo, gostar do meu jeito de ser e de me achar cada vez mais sensual.

Na verdade esta transformação tem uma razão de forro íntimo. Antes de o meu marido mudar-se para Brasília estávamos numa fase de constantes atritos. Brigávamos por pequenas e grandes coisas, porém o ponto crucial da discórdia era na cama. Ele me acusava de fria, distante e monótona. Por mais que me esforçasse para agradá-lo era criticada e nunca incentivada. Quando ele me procurava eu gelava só com o seu toque, esfriava de medo de sair ferida novamente.

A primeira atitude que tomei quando ele se mudou foi marcar uma consulta com uma atendente profissional. Garota de programa que anuncia nos jornais que é jovem, atraente, fogosa e sedutora, pronta para o seu delírio e prazer ilimitado. Parece loucura, estranho à primeira vista, mas como o meu psicólogo não conseguia me convencer de que eu não era nenhum iceberg, apelei para um tratamento de choque e fui à busca da cura com uma quente e sedutora prostituta.

O primeiro problema que tive que enfrentar com essa “aventura amorosa” foi me preparar fisicamente para o encontro. Não podia aparecer de cara limpa e ser reconhecida, tinha que me disfarçar. Coloquei uma peruca preta, um vestido largo e um casaco comprido, fazendo-me parecer uma tia do interior. Vesti toda essa parafernália no Shopping,  peguei um táxi e segui para o hotel combinado.

Cheguei ao hotel dez minutos antes do encontro, precisava me preparar psicologicamente. Fiquei apavorada com o que estava fazendo, não conseguia raciocinar, e amedrontada resolvi ir embora. Quando abri a porta para sair dei de cara com uma moça loira, bonita e sorridente. Ela era alta, magra, bem vestida, aparentava uns vinte e poucos anos, era o oposto do que eu poderia imaginar como garota de programa. Minhas pernas tremiam tanto que mal consegui tirar o pé do chão para deixá-la entrar no quarto. Quando fechei a porta vi o meu reflexo no enorme espelho sobre a cama e me achei ridícula, parecia uma prostituta do cais do porto. A moça aparentava ser uma jovem e pura garota de família. Ela me olhou com simpatia e sorriu. Sentou-se na cama e falou:

– O programa será só entre nós ou espera mais alguém?

Fiquei atônica com o que acabara de ouvir, o meu coração disparou e precisei sentar para não cair. Só faltava a garota pular sobre mim.

– Espere, não é bem isso! – Disse-lhe com a voz rouca e baixa.

Ela me lançou um olhar de interrogação e falou delicadamente:

– É a sua primeira vez com uma mulher? – Não se preocupe, serei carinhosa, vai gostar do que farei com você, ira enlouquecer de desejos e te saciarei até a ultima gota.

Ela se aproximou de mansinho, pegou na minha mão e alisou os meus cabelos. Desesperei-me, amarelei, e finalmente antes que o pior acontecesse me recompus e falei com a voz baixa e trêmula, quase um sussurro.

– Calma moça, não é bem isso o que estou querendo de você. Está tudo errado, sinto-me ridícula com essa roupa e com essa peruca, vou te explicar porque te chamei aqui.

A garota me olhava com cara de compaixão na medida em que eu ia contando-lhe a razão daquele encontro.

– Sou casada, tenho filhos e um marido que me tortura chamando-me de fria na cama. Toda vez que fazemos sexo ele me critica, me humilha. Estou aqui em busca da ajuda de uma profissional como você, que vive para o prazer. Ensine-me a derreter esse gelo que há em mim, a mexer com o corpo, a seduzir e ser desejada.

Percebendo que ela me ouvia atentamente continuei a falar mais alto, mas ainda nervosa.

– Estou envergonhada de estar aqui me expondo, mostrando a minha fraqueza, não suporto mais ser tão criticada, humilhada como mulher e esposa. Quero que me ensine a descobrir como se faz para que um homem tenha desejo e goste de fazer sexo comigo?

Senti a mão dela apertando a minha e me olhando nos olhos falou calmamente, – Você foi muito corajosa vindo aqui, deve estar mesmo angustiada. Há garotas de programa que não gostam deste tipo de proposta, são vingativas e obrigam a cliente a aprender na prática a fazer coisas que não gostaria de fazer com outra mulher. As clientes se submetem para evitar escândalos.

Fiquei gelada e balbuciei, – Não é por curiosidade que te procurei. Foi uma ideia ridícula para salvar o meu casamento. Não quero te ofender e nem prejudicar o seu trabalho. Por favor, esqueça tudo, falei em pé próxima à porta. Eu realmente agi como uma esposa a beira do precipício. Está aqui o que tenho de te pagar, e te peço mil desculpas se te ofendi.

– Calma! Respondeu a moça puxando-me de volta para a cama. – Não vou te atacar e nem fazer escândalos. Tenho também um nome e uma família a zelar. Estou no último ano de faculdade de psicologia e posso tentar te ajudar, afinal faz parte da minha profissão.

Não acreditava no que ouvia, era bom demais, após a tempestade achei finalmente um porto seguro. Pensando bem, nem tão seguro, afinal estava em um quarto de hotel com uma prostituta.

Ela começou me interrogando como uma verdadeira terapeuta. Queria saber sobre o meu marido, como ele se comportava na cama, como eu me sentia e como fazíamos sexo.

O encontro amoroso que seria de uma hora durou toda tarde. A jovem e experiente loirinha falou-me de como eram os homens, os seus anseios, os seus desejos mais íntimos, as suas taras e o que diziam não gostar, mas que acabavam fazendo com gozo. Ensinou-me a usar as mãos, fez algumas posições que me deixou rubra, gestos que excitam um homem, palavras e palavrões que eles adoram e tudo mais.

Fiquei maravilhada, ela descreveu os amantes que mais a marcaram e como ela os enlouquecia. Tive dicas fantásticas no curso teórico de sexo intensivo de curta duração com uma expert do ramo. Quando acabamos a consulta paguei em dobro pelo atendimento vip. Torço de coração para que aquela garota faça sucesso como terapeuta, pois ela é dedicada, atenciosa com o cliente, uma ótima profissional, principalmente na arte de ensinar sexo a pessoas bloqueadas como eu.

Despedimos com beijinhos, mas sem trocarmos telefones e nem os nossos verdadeiros nomes. Foi algo inesquecível, inacreditável e surreal. Fui muito louca, inconsequente, mas valeu, nunca mais esquecei aquela tarde. Tratei de colocar no papel todas as lições aprendidas. Estas lições de sexo foram fundamentais na minha vida, mudaram radicalmente o meu modo de ser com os homens. Homens…

A “terapeuta” me alertara para que eu fosse seduzindo gradativamente o meu marido, sem atropelos, com charme e confiança teria sucesso. Se eu fosse direto ao pote ele estranharia a minha nova performance na cama, e passaria a achar que eu estava com um amante.

– Amante! Credo!

Meu Deus do Céu! Meu marido quase me bateu na cama e me estrangulou querendo saber onde havia aprendido a ficar metendo o dedo onde não devia. Eu estava muito ansiosa para começar a praticar as lições de sexo. Vesti uma camisola nova, sex e me lancei sobre a minha presa, antes havia tomado alguns goles para criar coragem.

– Benzinho! Hoje vai ser bem gostoso, disse com um ar de pantera de zoológico. Em relação ao termo benzinho, é como eu o chamo em todos os nossos momentos, inclusive nos de raiva, esse vem recheado de deboche com cobertura de ironia.

Voltando ao benzinho, que já estava pré-aquecido, sentei-me na cama e por um instante pedi a Pomba-Gira que ajudasse a me tornar uma esposa fogosa.  Benzinho me puxou para cima dele e começou a me apertar sobre ele. Fechei os olhos para não me lembrar do seu olhar de reprovação, quando achava que eu não estava indo bem. Para atiçar o meu desejo o substitui pelo belo ator da novela das oito, que é sedutor e garanhão.

Primeira lição, utilizar as mãos com suavidade e arte, pesquisando o corpo do companheiro. Minhas mãos aos poucos foram ficando atrevidas, deslizavam pelos contornos do meu ator preferido, descobrindo pelos em locais interessantes, pequenas elevações na barriga e coxas tentadoras.

Benzinho gemia de prazer, anos de casada e eu nunca tivera a coragem de conhecê-lo por inteiro, frente e verso. Ele me possuía com tanta sede que eu, burra e apressadinha excedi e quis avançar para a lição de número quinze. Não deu outra, ele puxou a minha mão com força e quase destronca o meu dedo. O seu gozo foi tão violento quanto o seu gesto com o meu “fura bolo”. O fio terra funcionou.

– Kátia! O que é isso? Enlouqueceu!  O que você anda aprontando?

– Desculpe-me. – Disse-lhe nervosa. – Li em uma revista que alguns homens gostam desse carinho.

Irado, espumando pelas ventas, disse que ele era muito macho e não aceitava esse tipo de sacanagem.

Trêmula e sem palavras corri para o banheiro e chorei de raiva, porém jurei que ele iria engolir aquelas palavras. Hoje, posso dizer que já fiz todas as lições, muitas outras inventadas por mim e também por “eles”. Cumpri a minha promessa, ”fura bolo” hoje convive muito bem conosco, em muitas ocasiões é solicitado pelo machão para participar do nosso bacanalzinho particular.

(….) Continua

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Publicado em 1 de julho de 2016 por e marcado .
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