Vidas em contos

(por Rita Prates)

Uma exótica mulher

Ouvi um burburinho na porta giratória do banco, imaginei que seria mais um coitado pego pelo guarda para mostrar todos os metais da sua bolsa, do seu dente e se fosse muito azarado, mostrar a prótese. Virei a minha cadeira de infinita espera, e do ângulo obtuso em que estava, avistei um segurança colocando a mão sobre uma sacola xadrez gigante, que ia do ombro até ao joelho de uma senhora negra. O rapaz aparentando calma, apesar do nervosismo dos dez clientes na fila de entrada do banco, pediu para ver o que havia na sacola gigante. Para desespero da fila a mulher ainda tinha no outro ombro uma bolsa preta agarrada ao peito.

– Vamos ver o que a senhora carrega ai que tanto apita? Disse o segurança.

– Remédios, papéis e biscoitos, respondeu debochada a mulher.

O segurança enfiou o rosto dentro da sacola e quase foi engolido pela mesma, se escorregasse cairia de cabeça dentro da maldita, e se encolhesse as pernas era só puxar o fecho e pronto… Acho que era o que o pessoal da fila queria fazer, empurra-lo dentro da sacola. Após a inspeção atacou a outra bolsa debaixo do sovaco da mulher.

– Posso? Perguntou constrangido com os olhares de reprovação da fila irada.

– Claro meu bem, sou aposentada e tenho a tarde toda ao seu dispor.   Respondeu a senhora deixando transparecer um mix de ironia e raiva.

Finalmente a senhora foi libertada e considerada não perigosa à segurança do banco. Voltei para olhar se o número da minha filha estava próximo de ser chamado, e para a minha surpresa ela já havia assumido a cadeira em frente ao gerente, continuei sentada observando o movimento. De repente vejo a senhora da sacola gigante em pé ao meu lado. Mudei de cadeira e ofereci-lhe o assento, ela agradeceu e disse que preferia ficar em pé.

A senhora era um espetáculo! Todos se viravam admirados para vê-la. Ela era negra, aparentava mais de setenta anos, estava com um vestido longo de alcinhas cujo tecido de estampas grandes nos tons de rosa cobria um corpo magro, quase esquelético. Percebi que ela não usava soutien quando a alça da sacola agarrou na do vestido e puxou para baixo o decote, deixando à mostra um seio pequeno e redondo.

– Senhora, falei baixinho, o seu peito está aparecendo.

Ela sorriu e ajeitou-o de volta para dentro do vestido. Agradecida, resolveu puxar conversa comigo, claro que topei, pois agora poderia vê-la melhor, apesar de ficar olhando-a de baixo para cima.

Todo o visual desta senhora era muito extravagante, parecia uma rapariga velha.  Ela usava uma peruca preta, lisa, que descia até os ombros, uma farta franja cobria a testa até as sobrancelhas, e sobre a peruca destacava um chapéu branco de nylon. No rosto muito magro sobressaiam os olhos contornados por um lápis azul que os projetava para fora, como duas bolas de pingue-pongue. Os lábios eram carnudos, recheados com algum produto químico. Ela os desenhou com um lápis azul da cor dos olhos, e por dentro passou um batom vermelho que já se encontrava desbotado. O que se via eram dois olhos arregalados e um boca disforme projetada para frente, mas os dentes eram perfeitos e muito brancos.

Percebi clientes esticando a cabeça para nos ver, pareciam querer saber o que tanto conversávamos. É lógico que havia em mim muita curiosidade a respeito desta mulher excêntrica, que não dava bulufas para o que achavam dela.

Contou-me que morava em Copacabana, e que tinha saído de Mauá a mais de trinta anos para ganhar dólares com os turistas. Eu e mais meia dúzia de pessoas ao meu redor ficamos de orelha em pé.

– Como ganhar dólares com turistas. Perguntei-lhe curiosa.

Sorriu sorrateira ao falar que um amigo havia lhe dito que Copa era o paraíso dos dólares, bom para vender de tudo, inclusive bijus para os gringos. Alugou uma barraca e montou o seu negócio na Avenida Atlântica. Como antigamente não havia tanta fiscalização, ela aproveitava e ficava até de madrugada vendendo, vendendo… Apesar da difícil vida fácil, faturou bem, alugou um apartamento no bairro e trouxe a filha para morar com ela. A garota, para não conviver com marginais, era trancada em casa a sete chaves até se casar com um rapaz de bem.

– Tinha muitos clientes cheios da grana, diz com um sorriso matreiro. – Hoje os gringos estão mais pão duro, acho que é a crise, também não tenho mais idade para este tipo de trabalho. Minhas amigas não andam nada satisfeitas com o que ganham, há muita perseguição da policia que não as deixam trabalhar em paz.

Falou que depois que o metrô veio para Copa, o bairro se encheu de pretos e marginais. Ela demonstrava um forte preconceito em relação aos negros, apesar de ser negra, ela disse preferir os brancos, e para a minha surpresa afirmou de forma enfática o que a mãe ensinou-lhe que: – quem com porco vive, farelo come. Fiquei de boca aberta, como assim! Pensei incrédula.

– Esta sacola é a minha salvação, falou misteriosa a senhora. – Dentro dela tem vários processos que vão me deixar rica, muito rica. Agora é assim, se me maltratarem vou imediatamente exigir os meus direitos, não pego peixe pequeno, só grande, cheio da grana.

Levantou o vestido até o joelho e me mostrou uma cicatriz provocada por uma queda no ônibus, foi derrubada ao chão antes dela acabar de entrar no veiculo. – “Este vai demorar, mas dará uma notinha boa”. Falou de outro processo, acusava um médico de tê-la deixado careca após tratar de um furúnculo no alto da cabeça, e por causa dele era obrigada a usar peruca. Acostumou a usá-la, achava o cabelo atual mais bonito do que o original.

Contou-me que tinha mais três processos em andamento. Estava pensando se iria entrar contra o hospital onde tinha caído quando saia pela entrada principal. – “Cai de bunda no chão, tinha papelão forrando a entrada do prédio”, disse sorrindo. – Imediatamente as enfermeiras cuidaram dela e ainda ofereceram um lanche. Estava pensando em relevar o acontecido, pois ia quase todos os meses ao hospital para controle, nesse caso era melhor não provocar.

Disse, quase sussurrando, que tinha amigos influentes, desembargadores, políticos e abonados, e que a sua luta agora era para reconhecer o pai da sua filha já falecida, porque tinha três netos dependentes dela. Quando trabalhou na Atlântida conviveu com muitos rapazes da sociedade carioca, dois deles estavam na sua mira, e um deles seria o provável pai da moça. Iria pedir o teste de DNA e depois cobrar ajuda para criar os garotos. Não entrou antes com a ação porque a filha não permitiu.

– Direito é direito, agora é a minha vez. Todo mundo pede, qualquer piriquete consegue provar que o fulano, jogador de futebol, artista ou ricaço é o pai de seu filho, por que eu também não posso? Questionou-me, elevando a voz em tom de discurso.

Quando ela ia me contar detalhes sobre os prováveis pais da garota, minha filha me chamou para irmos embora. Apresentei-lhe a senhora que imediatamente falou: – Quase fui tomar satisfação com você, pois percebi que quando conversávamos não parava de me olhar. Estava esperando minha amiga sair do banco para armar um barraco. Iria processá-la porque estava me deixando constrangida. – Como se chama? Danos morais?

– Calma, falou timidamente minha filha. – Fiquei curiosa querendo saber o que falavam, desculpe-me se a deixei incomodada. Ela sorriu, e a abraçou ao ver que alguns clientes paravam observando o que se passava entre nós.

Despedimo-nos como velhas conhecidas, ela ainda fez questão de me dar dois beijinhos. Passamos pela porta giratória e vi a atendente encaminhando-a para a mesa de uma gerente. Qual não foi a minha surpresa ao ver que a moça estava tão extravagante quanto ela.

A gerente trajava uma saia de oncinha marrom colada no quadril, só vestindo a vaco para entrar naquele corpo robusto. Usava uma blusa branca transparente, decotada, deixando à vista seios fartos e salientes, e no pescoço um lenço de onça pintada de negro. Para complementar o visual, usava sapatos vermelhos de salto um palmo acima do chão.

Sai do banco ciente que o estilão glamoroso da gerente era muito parecido com o da minha amiga de chapéu branco. Elas iriam se entender muito bem, pensei sorrindo enquanto atravessava a rua. Ambas possuem o mesmo perfil, a mesma natureza, e o jeito excêntrico de ser.

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Publicado em 24 de junho de 2016 por .
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