Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas – Parte 2 – Valéria

Há uns dois meses acordei mal-humorada, se pudesse passaria o dia trancada no meu quarto e só apareceria à noite. É raro eu me sentir envergonhada, mas tem noites em que eu passo dos limites. Tenho consciência de não sou uma mulher bonita. Sou baixa, meio gordinha, cabelos cor de mel e escorridos até os ombros, porém quando me olho no espelho sei que o meu todo agrada.

Às vezes penso que os homens se envolvem comigo porque gosto de conversar, sou bem informada e estou sempre disposta a trocar ideias. Pareço pretensiosa, mas não é bem assim, na verdade sei como agradar as minhas conquistas, sempre os encontros acabam na cama onde trocamos opiniões e carícias.

Pois é, falando em casos e cama, é que há três meses acordei com ressaca moral. Acho que passei dos limites na noite anterior. Eu já havia chegado calibrada na festa de uma amiga, e, de cara, vejo alguém que me toca profundamente, o sujeito estava acompanhado e agarrado a uma garota aos beijos. Fiquei enciumada, procurei cercá-lo com olhares e insinuações durante uma boa parte da noite. Na primeira oportunidade estava na cozinha ajudando-o a preparar a sua milésima bebida.

O tremor da paixão me tirou o juízo, comecei a me roçar nele, passar a mão sobre a sua calça, e quando o vi excitado abri o seu zíper e tirei o que era meu para fora. Passou um redemoinho entre nós e fomos parar dentro de um banheiro no quarto da empregada. Ouvi vozes nos procurando, enquanto ele me arrancava a roupa, me sugava os seios e me penetrava como um tsunami invadindo a praia, derrubando casas e arrancando árvores. Com ele me entrego totalmente, me arrisco a morrer afogada, me exponho por inteiro e deixo que ele me dobre, me vire e me revire em qualquer lugar.

Fizemos sexo várias vezes, mas quando acordei não estava no banheiro e sim deitada em uma colcha no chão do quarto da empregada, ao meu redor havia outros casais seminus. Sai de fininho sem fazer barulho. Em casa fiquei me olhando no espelho do meu quarto sem saber a extensão do vexame que dei, e em que proporção chegou.

Procuro viver a minha vida intensamente, sem dar muita satisfação aos outros, mas sei que tenho que ser cautelosa com a minha imagem. Sai do interior muito nova, cursei a faculdade de engenharia e depois fiz o mestrado. Considero-me uma boa profissional, procuro concentrar boa parte da minha energia na empresa e como professora universitária .

Voltando ao espelho, se eu resolvesse me virar pelo avesso ficaria horrorizada comigo. Não pelo sangue correndo pelas minhas veias ou pelos órgãos trabalhando agitados para acompanhar o ritmo louco do meu dia a dia. Lógico que não é isto, a realidade é que não quero me expor, não quero me desnudar, não quero me enfrentar cara a cara. Sei que já não sou mais uma jovem, que a minha fase de porra-louquice já deveria ter acabado, mas existe algo de irresponsável dentro de mim que me tira do sério e me agita para essa vida mundana.

– Um filho, vocês já tiraram um filho de suas entranhas? Isto mesmo! Já fizeram um aborto? Eu fiz. Sabe por quê? Por que eu literalmente não sabia quem era o pai e, se soubesse, nenhum dos dois seria um bom para o meu filho. A situação chegou a tal ponto que quando cheguei em casa acompanhada de um, lá estava o outro dormindo na minha cama. A minha amiga, que morava comigo, entrou em parafuso, e com receio de um quebra-quebra falou que estava dormindo com o namorado. Fiquei uma semana me condenando e para complicar a minha turbulência emocional, o DIU falhou e eu engravidei.

A decisão de tirar a criança não me deixou abalada, esta seria a segunda vez que eu não me permitia ser mãe. Enfrentei o aborto corajosamente, mas nunca me recuperei do aborto anterior. O anterior foi muito sofrido, pois quando me engravidei fiquei orgulhosa porque teria um filho de um professor que eu adorava e o respeitava como intelectual. Ele era para mim o mestre dos mestres. Mestre de toda a minha ideologia, mestre na cama, mestre na arte de conquistar mulheres e mestre na sua insanidade de se sentir um ser superior. Ele se acha o único, desceu a terra para transmitir o seu saber e não para reproduzir, seria o último da linhagem.

Obrigou-me a abortar. Ele me feriu profundamente, me deixou descomprometida com a vida, com o futuro. Até hoje me arrependo de não ter tido o meu filho. Olho para as crianças que tem a mesma idade dele e me angustio, sofro profundamente. Era um filho desejado e eu não lutei pela sua vida. Acredito que grande parte da minha desorganização emocional está em tê-lo expulsado de mim, abortado em troca da promessa que ficaríamos juntos para sempre. O que me sobrou são momentos de loucura, prêmio de consolação dentro de um banheiro.

Para fugir desse homem e do meu sofrimento eterno, entrei de cabeça em um relacionamento com um físico, um místico que conheci no Rio de Janeiro. Pelo menos ele me trás vibrações cósmicas positivas e energéticas.

Faz duas semanas que entrei em sintonia com o universo, sinto vibrações positivas pela casa e altas vibrações na cama. O meu místico Tadeu é estupendo, capta energias positivas e as transformam em ótimas horas de amor. Isto mesmo, energia, horas e horas de muito sexo, tudo envolve muita concentração e entrega total.

Ultimamente, passo a noite em Alfa, vibrando a cada nova posição de ioga e me devoto mais de corpo do que de alma na integração com o além. Cada relação pode durar horas a fio, Tadeu tem domínio total sobre o seu “corpo”, consegue segurar cada gozo, como um faquir em cima de uma cama de pregos. Tive que aprender algumas posições de yoga para não sentir câimbra e para não cansarmos. Galopamos pelos prados, escalamos paredes e viajamos nas nuvens enfumaçadas do meu quarto.

É um sarro quando conto para as minhas amigas, em detalhes, as trepadas fantásticas, sempre as deixo com inveja. Quando chego elas ficam a minha volta pedindo para que eu lhes ensine novas posições, dão gargalhadas quando sou obrigada a me contorcer para mostrá-las como se faz. Todas estão adorando as aulas de sexo com mantras, dizem que os seus companheiros ficam espantados, curiosos e muitas vezes desconfiados. Aprovam as novidades, dizem que relaxam, e quase sempre pedem para repetir algumas lições.

Ele é uma figurinha esquisita, alto, magérrimo e com uma cascata na cabeça. Algo como um rabo de cavalo bem no alto do cocuruto, fazendo com que os seus belos, lisos e loiros fios caiam em forma de cascata pelo rosto. Fico envergonhada com a alegoria, sutilmente procuro desfazer o nó do vexame que passaria saindo acompanhada de um jovem carregando uma queda d’agua, porém muitas vezes sou obrigada a desfilar com o meu louco alienígena pela faculdade.

Justifico para os incrédulos que ele é um gênio, e pela tradição todo gênio é um louco. Fico sempre atenta e preocupada com o look do meu novíssimo namorado, afinal não posso deixar que as línguas mal amadas acabem com a minha impecável reputação.

– Esta sou eu. – disse Valeria olhando para as mulheres a sua volta. O combinado é que cada uma fale de si resumidamente. – Agora passo a palavra para…

Kátia levantou a mão pedindo a palavra.

 

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Publicado em 17 de junho de 2016 por e marcado .
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