Vidas em contos

(por Rita Prates)

O cruzeiro dos sonhos

A primeira impressão que tivemos ao entrar na fila de embarque para o cruzeiro na Patagônia foi que seria uma viagem de idosos e cadeirantes cercados de muitas bengalas. Depois percebemos que havia uma pequena quantidade de jovens e crianças que logo se enturmaram. A faixa etária varia entre cinquenta e oitenta anos, alguns mais atrevidos beiram os cem. A língua predominante é o inglês, seguido de espanhol e do nosso tímido e agradável português.

Parece que estamos o tempo todo dentro de um filme, cercados de pessoas com alto poder aquisitivo que não se importam em gastar no cassino e com bebidas. O visual é variado, roupas de grife circulam em corpos robustos e seios fartos, indiferentes se as listas combinam com as bolas. Há uma mistura visual desconexa, o que deixa o ambiente eclético.

Grande parte dos viajantes está muito acima do peso, mas isso não os impedem de vestir roupas justas e de irem para a piscina balançando as ondas carnudas que mostram as exageradas curvas que contornam os seus corpos pesados. Dezenas de passageiros ficam nas espreguiçadeiras espalhadas pelos decks se bronzeando, outros ouvindo shows de rock no telão e se servindo fartamente de bebidas e guloseimas cheias de calorias.

Os idosos passageiros têm folego de jovens. Nos restaurantes passeiam com pratos gigantes cheios de frituras, bolinhos e doces. São insaciáveis tanto em relação ao que comem como em relação a curtirem cada momento no navio. Querem aproveitar ao máximo todas as atividades que são oferecidas: aulas de idiomas e de danças, apresentações de mágico, de malabaristas, jogos, piscinas e muito mais. Estão ávidos por diversão e por desfrutar de tudo. Nesse vai e vem de atividades se esquecem da idade e se tornam jovens e descontraídos.

A lição de vida maior vem dos passageiros em cadeiras de rodas ou em carrinhos de apoio, eles não medem esforços para fazer parte do todo. Circulam pelos corredores com as suas pernas redondas preparadas para vencerem vários obstáculos. Misturam-se com os outros viajantes sempre dispostos a se divertirem e, às vezes, suas rodas esbarram nas muletas dos que vão lentamente à busca de uma atividade que possam usufruir com a mesma alegria dos passageiros comuns.

O burburinho é geral, conversas em vários idiomas, risos brancos, negros, amarelos e pardos têm a mesma vibração, o mesmo prazer. Contam historias de filhos, netos e de suas viagens pelo mundo. Falam mais do que ouvem. Quando a convivência se estende contam de suas frustações, emoções e desejos. Uns se enturmam rapidamente, outros se afastam para ler ou  sentam nas poltronas observando os passantes.

Sentem-se vivos, participantes, integrados no mundo do faz de conta, do luxo, da liberdade de ser e fazer. Percebe-se que gostam de se sentir ativos e atuantes nesse espetáculo de luzes, brilhos e muita música.

O luxo do navio com detalhes dourados é a Disneylândia dos adultos. As diversões se completam em torno de jogos no casino, nos lances dos leilões de quadros, nos bingos e nos diversos sorteios para os entusiasmados passageiros. No teatro superlotado, os shows tentam imitar os da Broadway, muita música, danças e cenários coloridos.

Em ambientes de grande circulação, pianistas tocam musicas de décadas passadas, encantam os passageiros com canções que provocam recordações de momentos de felicidade. Eles aglomeram-se ao redor do piano e juntos cantam alegremente, deixam-se embalar pelas melodias que fizeram e ainda fazem parte das suas vidas. Nos rostos percebem-se sorrisos de cumplicidade, de tempos vividos com intensidade.

Na boate libertam os seus corpos carentes de vibração. Poucos dançam agarradinhos, uns deslizam pela pista relembrando passos esquecidos, mas a maioria é desajeitada e indiferente aos olhares ao redor, tentam com os seus requebros desengonçados acompanhar a musica. Querem apenas se divertir, se soltar e serem felizes. A dança reacende o contato físico e suave com o parceiro, o cheiro do perfume que exala da pele, o toque das mãos, o roçar do corpo estimula o desejo que os anos de convivência deixaram adormecido.

Os risos correm pelas mesas, passam pelos corredores, atravessam os salões transformando rostos sérios em semblantes alegres e suaves. Um ar impregnado de prazer paira sobre a maioria dos passageiros que quer apenas curtir ao máximo cada momento. Eles só desejam se divertir muito, ler, jogar baralho e conversar amenidades.

Os tripulantes são gentis, sempre dispostos a agradar cada turista com discrição e interesse em ajudar. As refeições nos restaurantes requintados e luxuosamente decorados são magníficas nos sabores e na qualidade. Os aniversários são comemorados alegremente por divertidos garçons que cantam e encantam o feliz aniversariante.

O jantar de gala com o comandante é o top de todos os eventos. Os homens vão vestidos a rigor, alguns com gravatas borboletas. As mulheres se esmeram no visual para desfilarem com seus vestidos longos e salpicados de brilhos e cores. Como os passageiros são de diversas partes do mundo há uma mistura cultural no vestir.

Alguns homens se rendem à obrigação de usar terno, mas não dispensam uma sandália ou um tênis confortável. Algumas mulheres se vestem com elegância exagerada e outras com roupas reconhecidamente usadas em diversos outros carnavais. Vale tudo: decotes, rasgos nas coxas, transparências, vestidos justíssimos em corpos dois números acima do peso e, para completar, algumas usam roupas muito juvenis para a faixa dos “entas”.

Todos se aglomeram nas escadarias que dão para uma área central onde esperam a chegada do capitão. Ele, no seu belo uniforme branco, desfila majestoso até uma pequena sacada, faz um discurso de boas vindas e é aplaudido com entusiasmo. Simultaneamente é construída uma cascata de taças em forma de pirâmide, onde um eufórico apresentador convida passageiros para subirem em uma escada e, de cima, derramar champanhe na primeira taça que vai entornando o liquido precioso nas outras até chegar às últimas da base.

Mulheres e homens formam filas para serem fotografados derramando champanhe. As fotos serão expostas junto com outras mil tiradas em diversas ocasiões e, fixadas no corredor que dá acesso ao saguão principal. Claro que todas são cobradas a preço de ouro, em contrapartida o foto shop faz o milagre de tirar as rugas e manchas, tornando todos belos e rejuvenescidos.

O navio faz paradas em Buenos Aires, Montevideo, Porto Stanley, Ushuaia, Punta Arenas e encerra o cruzeiro em Valparaiso. São oferecidos passeios em cada uma dessas cidades, sendo que a maioria dos passageiros veio à região da Patagônia com o interesse de ver pinguins, leão marinho, focas e tudo que a fauna e flora da região possam abrilhantar com as suas espécies.

Formam-se grupos de amigos que estão dispostos a aproveitar ao máximo cada minuto no navio, uns mais extrovertidos animam as mesas com seus casos. Uma carioca descolada diz que não voltará sem ver os pinguins, pois já enfrentou dilúvios, tormentas e nevascas no cruzeiro e ainda não viu os bichinhos. Para a salvação do companheiro, conseguiu visitar uma colônia onde pinguins passeavam pelo solo gelado e nadavam no mar fazendo poses para os ávidos turistas, que corriam de um lado para outro fotografando cada detalhe com suas máquinas de cliques histéricos.

Percebe-se que há algumas senhoras bem mais velhas na faixa dos noventa anos ou mais que estão sozinhas e sem os familiares. Elas procuram se integrar, fazer novos amigos e contar, pela milésima vez, suas histórias de vida. O capitão contou que uma senhora argentina viaja no navio todos os anos, o filho a retira do asilo e a presenteia com o cruzeiro de dois meses.

Há relatos de vários velhinhos que fazem cruzeiros por meses seguidos. Eles praticamente moram nos navios, e por não terem parentes que os acolham, preferem a alegria daquele ambiente ao silêncio das casas de repouso. Alguns morrem nos cruzeiros embalados pelas ondas do mar.

Quando o navio atraca finalizando a viagem, todos se despedem com pesar. Trocam endereços e telefones, vão para as suas casas, para o mundo real. Prometem se encontrarem novamente, poucos mantem a amizade, a maioria não se vê mais, só nas fotos, nas lembranças dos dias vividos com intensidade no cruzeiro dos sonhos.

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Publicado em 10 de junho de 2016 por .
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