Vidas em contos

(por Rita Prates)

A dengue e eu

Ela chegou sutil, traiçoeira, veio como um amigo que aparece na sua casa e pede para ficar por uns dias até conseguir uma nova moradia, e vai ficando, ficando. Invade-te aos poucos, primeiro acomoda em teus músculos, vai ocupando espaço, e quando você percebe e tenta se libertar, todo o seu corpo já foi invadido e uma dor intensa vem lhe avisar que perdeu, perdeu. Vitoriosa e não satisfeita, te agradece com um aperto no peito que o deixa dias e dias com dores nas costas e uma sensação de impotência de que foi novamente apanhado de surpresa.

A impressão que se tem é de que está dormindo com o inimigo. Estrategicamente você vai sendo levado a trata-la bem para que ela vá embora de sua vida o mais rápido possível, mas passa a noite atenta aos novos sintomas como; calafrios, suores intensos e febre alta. Mas as coisas não são bem assim, insatisfeita com a bateria de remédios atacando-a dia e noite ela então revida te deixando fraca, desprovida de vaidade e arrasada física e psicologicamente.

Alertada sobre o risco de se entregar à inimiga, você resolve reagir e recobrar as energias, pois precisa lutar e expulsá-la desse corpo que não a pertence. Esforça-se ao máximo para fortalecer o seu organismo, recebe apoio, armas e alimentos para combatê-la com mais resistência. Quando já está vencendo a guerra da febre, recebe um contra ataque, o campo de batalha amanhece cheio de brotoejas espalhadas por todas as áreas, aparentemente inofensivas, mas com um poder de ataque agressivo, causando ardências e coceiras, deixando-a nocauteada novamente.

Agora, não adianta querer arrancar os cabelos, mesmo porque o couro cabeludo está dolorido e aumentaria o sofrimento. O cheque mate é expulsá-la em definitivo de seu corpo, comer o máximo que puder e conseguir fazer o alimento descer pela garganta ferida, afinal a dengue precisa entender que esse ser que vos fala não a pertence, logo precisa desencarnar dele para sempre e deixa-lo voltar a ser feliz.

Quando senti os primeiros sintomas da dengue fui parar em um hospital, e para a minha surpresa lá estavam dezenas de pessoas com a doença aguardando para serem atendidas, isso pós-carnaval. Cheguei por volta das catorze horas, a prioridade era para quem estivesse com mais sofrimento físico. Depois de horas esperando, mandaram-me para um setor onde havia outros milhares de pacientes tomando soro e aguardando resultado dos exames. Vômitos para um lado, choro para outro, gemidos e indignação por parte dos doentes e acompanhantes.

Não havia idade, sexo, status ou nacionalidade, todos era farinha do mesmo saco. Um jovem gringo a minha frente gemia sem parar, depois apagou. Fiquei olhando-o encolhidinho na poltrona, pensei nas Olimpíadas, se aqui em Belo Horizonte a saúde é considerada melhor do que dos outros estados, imaginei o caos no Rio de Janeiro onde constantemente estampam manchetes de pessoas morrendo nas filas dos hospitais por falta de medicamentos, médicos e leitos, A população está desamparada, desprotegida e jogada a própria sorte.

Sai do hospital por volta das dez horas, isso porque eu tenho um plano de saúde, quem não tem sofre nos posto de atendimento ou fica igual a minha faxineira, que mesmo com dengue hemorrágica mandaram-na para casa sem medicá-la. Ela sobreviveu porque era forte e ainda não era a vez dela partir. Quando estávamos saindo do hospital vi salas lotadas de pessoas aguardando para serem chamadas.

Não posso deixar de ressaltar que os médicos e enfermeiros estavam em estado de penúria, não tinham tempo para respirarem, como não havia um plano emergencial para uma situação de epidemia, onde deveria ser requisitados mais médicos e medicamentos para atender todo esse contingente, via-os correndo de um lado para outro tentando solucionar os casos mais graves.

Voltei ao hospital mais duas vezes e continuava o mesmo caos, poucos médicos e muitos e muitos doentes de dengue. Por fim, livre dessa visita desagradável ficou o medo, não, o pavor de pegar novamente a dengue. Procuro me proteger mais com repelente, própolis e o escambal para não passar novamente por esse inferno.

A minha hóspede foi embora depois de me nocautear, mas eu sobrevivi. Espero que ela nunca mais regresse a essa casa, que esqueça o meu endereço e que o mosquitinho monstro seja em breve dizimado da terra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 7 de junho de 2016 por .
%d blogueiros gostam disto: