Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas – Parte 1

Desço a rua calmamente, sinto o ar fresco da manhã brincando com os meus cabelos e o sol tímido aquecendo todo o meu corpo. Viro à direita e entro no bosque dos Colibris. Caminho por um passeio estreito, cheio de curvas cercadas por gramas e coqueiros. Quando chego à última curva deparo com uma avenida e contemplo, encantada, a luz da manhã brilhando no espelho d’água da barragem.

Uma pista de Cooper vai seguindo silenciosa os contornos da mata. Árvores e coqueiros decoram a paisagem, refrescando com os seus galhos os quiosques coloridos com mesas e cadeiras repletas de exaustos atletas. Mais à frente vejo homens e mulheres fazendo caminhada, crianças andando de bicicletas, de patins, velhos sentados nos bancos ao redor do lago, admirando os gansos e patos que adoram nadar em fila. É bela a vista nesta manhã de inverno.

Gosto de observar as pessoas, imaginar como vivem, saber de suas histórias. Muitas vezes me pego ouvindo conversas de um aqui, outro acolá.  Se me interesso, reduzo o passo e ouço fragmentos de casos. Como somos cercados de problemas, a maioria usa da caminhada para desabafar, contar sobre a sua dor, ouvir conselhos, criticar o caos, e compartilhar suas alegrias.

Observo Tatiana vindo em minha direção, ela foi minha colega de escola, ultimamente fazemos caminhada quase todos os dias. Fico abismada com os seus relatos desenfreados, e me desculpem se pareço perversa, porém às vezes a procuro só para saber da última que ela aprontou.

Tatiana está cada dia mais magra e envelhecida. O rosto pálido e ressecado cobriu-a de marcadas profundas, a sua aparência é cada vez mais cadavérica. Tinha os cabelos pretos, mas ultimamente um mar de tristeza inundou-os de branco. O que lhe salva são os belos olhos verdes, que lhe alivia o semblante das tensões de um casamento desfeito recentemente. Aos cinquenta anos acha que o mundo desabou sobre ela, para se vingar, faz o que lhe vem à cabeça, não medindo as consequências.

Ela é a esposa típica décadas passadas. Estudou em um colégio de elite, onde pais abastados matriculavam suas filhas para tirarem o diploma e arranjarem bons casamentos. Para não fugir a regra, ela se casou com um rapaz da sociedade e teve três filhos. Foi professora durante alguns anos, depois começou a achar a profissão enfadonha e, quem sabe, a própria vida. O fato é que ela mudou do giz para a agulha, tornou-se uma dona de uma boutique de roupas finas.

– Você não foi à loja buscar a sua blusa. Fiquei sem saber se deveria entregar no seu serviço. O que houve?

– Desculpe-me, ando tão atarefada esta semana com um cliente que nem tive tempo de te ligar. Pode deixar que pegarei a blusa na loja. Agora me fale de você, como foi o seu final de semana?

A resposta da minha amiga durou exatamente vinte e cinco minutos, sem me dar um segundo sequer para pelo menos falar: Há! Nossa! Puxa vida!  Ela engatou uma primeira xingando o ex-marido, na segunda marcha foi a vez de falar mal da ex-sogra e na terceira disse que andava recebendo telefonemas anônimos das bruacas que o ex. catava na noite.

A primeira vez que Tatiana tocou no assunto de sua separação senti que ficara envergonhada, vi uma expressão de derrota em seu rosto. Expressão essa, que normalmente vejo nos rostos das mulheres que estão sofrendo com um relacionamento infeliz ou estão em processo de divorcio. Vejo nelas dor, vergonha, raiva e desilusão. Poucas se mostram aliviadas, normalmente são elas que tomam a atitude de se separar, a maioria demonstra angustia com a incerteza do amanhã, como cuidar dos filhos, da casa, do futuro, outras vêm uma forma de se libertar, de começar uma nova vida.

Tentei animá-la falando que na última semana havia estado com três amigas que também se divorciaram. É complicado quando se vê um casamento de anos virar de cabeça para baixo, o dela provocou um maremoto, balançou a sua estrutura emocional deixando-a agressiva, revoltada e disposta a guerrilhar com todos que estão ao redor do falecido.

Enquanto conversava com a minha angustiada amiga tive uma ideia que talvez nos ajudasse, chamaria umas mulheres que estavam passando por crises existenciais. Faríamos encontros onde pudéssemos extravasar as nossas magoas, desejos, perdas e conquistas. Onde pudéssemos abrir os nossos corações e, quem sabe, nos ajudarmos mutualmente.

Valéria, Katia, Heidi, Laura, Aline e Tati aceitaram participar dos encontros, estavam dispostas a se virarem pelo avesso, se reencontrarem.

No primeiro encontro, sentadas nas poltronas da sala de uma terapeuta, que se prontificou em nos dar apoio, fizemos um pacto de que não poderíamos comentar nossos encontros com ninguém, que tudo o que  falássemos seria um segredo só nosso. Tentaríamos nos ajudar sem bloqueios, ouvindo umas as outras sem criticas ou censuras, apenas tentando encontrar uma melhor alternativa de viver com mais qualidade e prazer. Quem não gostasse poderia sair do grupo, mas teria que manter os segredos das revelações, um pacto ético de lealdade feminina.

Ficou decidido que cada uma se apresentaria ao grupo sem interferência ou opiniões das demais. Depois, nos encontros seguintes, iriamos debatendo os temas que achássemos mais interessantes. Como não havia um script, cada uma poderia se expressar da maneira que achasse mais adequada. A primeira a falar foi a corajosa Valéria que estufou o peito, encarou o grupo e se entregou por inteiro.

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Publicado em 4 de junho de 2016 por e marcado .
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