Vidas em contos

(por Rita Prates)

Um dia de Rio

O dia amanheceu nublado no Rio, havíamos agendado um encontro com uma cartomante na zona norte e, como boas mineiras que somos, saímos mais cedo para não chegarmos atrasadas.

O metrô estava lotado e os vagões cheios, entramos no último, não por escolha, fomos literalmente empurradas para dentro dele. Foi a nossa sorte, conseguimos dois assentos, contentes, ocupamos imediatamente nossos lugares já que seria uma longa jornada de Copacabana à Tijuca.

Comecei a observar com cuidado e atentamente os passageiros a nossa volta, me chamou a atenção uma jovem magricela, de pernas longas cobertas com meias pretas que, como uma artista de circo, conseguia entrelaçar suas pernas dando duas voltas uma na outra. Ela era toda tecnicolor, cada peça de roupa era de uma cor forte, destoando harmoniosamente uma da outra. Na cabeça um arco todo trabalhado com pequenas flores segurava os cabelos roxos. O visual era muito chamativo para esconder a figura tímida da jovem contorcionista, que não tirava os olhos dos pés, evitando encarar as pessoas a sua volta.

Ainda a admirar a jovem pela ousadia de sua envergonhada façanha percebo o trem parando em uma estação, vejo entrar um jovem rapaz vestido com uma camiseta polo, uma mochila nas costas, meias e tênis da moda, porém estava sem as calças, isto mesmo, o simpático e bem aperfeiçoado rapaz estava de sunga/cueca preta. Antes de dar conta se era cueca ou sunga de praia, o rapaz procurou tampar o sexo com três encartes de propaganda distribuídos na mão direita como se fossem cartas de baralho em leque.

Ficamos de olhos na peça rara a nossa frente e passamos a analisar qual foi a situação que levou aquele cara entrar quase pelado metrô adentro. A primeira hipótese era a que ele pegou uma garota de programa e esta lhe deu um “boa noite cinderela”, deixando-o sem dinheiro e sem as calças. Ficamos em dúvida, pois o tênis, a blusa e a mochila eram de marca, neste caso, provavelmente, ela o teria deixado literalmente sem lenço e sem documento.

A outra hipótese era que ele teria sido pego em fragrante agarrado nos braços de uma jovem comprometida e na fuga catou tudo,  mas as calças e a carteira ficaram pra trás, sobrando somente o cartão do metrô na mochila.

Enquanto fazíamos conjecturas, um rapaz sentado ao nosso lado ria discretamente e uma garota em pé mexia com o celular avidamente.  Nesse meio tempo o rapaz de sunga/cueca não conseguia conter o nervosismo, olhava constantemente para os seus documentos guardados a três encartes e procurava ficar na quina da porta para que ninguém visse o seu bumbum, o que era praticamente impossível para quem estivesse na plataforma.

A estação seguinte estava lotada, o que aumentou o nervosismo do sem calça, pois o zunzunzum dentro do vagão com risos em sua direção o deixava sem sangue nas faces. Tenso, quase desesperado, trocava o tampa sexo das suas mãos quase deixando cair um que tinha o retrato de uma mulher de roupas de banho. Quando as portas abriram ele vacilou se saia ou não saia.  Vendo-se acuado como um animal em exposição, optou por sair correndo, quase aos tropeços, tendo que obrigatoriamente mostrar o bumbum redondo, branco, numa cueca de filó transparente, onde se via os contornos de suas nádegas redondas de horas de academia.

A moça que estava em pé com o celular em mãos, avisou que havia tirado fotos do rapaz e enviado via Whatsapp para os amigos verem o que de surreal havia acontecido na sexta-feira pela manhã no metrô quando ia para o trabalho. Rindo da situação, pra lá de bizarra, tentamos concluir que o rapaz deveria ser um gogoboy fugindo de uma coroa histérica, tarada, que lhe tirou as calças e queria que ele fizesse um programa de sexo selvagem.

Foi hilário ver o rapaz subir em disparada as escadas da estação do metrô e desesperado sair pelas ruas de Copa às nove da manhã, sem lenço, sem grana e de cueca de filó transparente pelas ruas ensolaradas do Rio.

Voltamos a nos concentrarmos na cartomante. Adoro cartomantes, é um espetáculo onde a cada carta virada aguardam-se grandes revelações, algo novo, desejos, sonhos que talvez nunca sejam realizados, passados duvidosos em cartas envelhecidas, desbotadas. É uma grande representação onde me envolvo e aguardo que se acerte pelo menos o mais banal dos desejos. Nem sempre, ou quase nunca acontecem as previsões, mas gosto do mistério, da ilusão de um novo amanhã. Sai satisfeita, sonhadora, como se tivesse assistido a uma peça de teatro, mas passa rápido, o efeito não demora muito e caio na real, mas mesmo assim acho divertido brincar de adivinhar o futuro.

Na volta seguimos pelo calçadão para apreciarmos a beleza do mar e dos morros contornando as praias. Deparamos com uma homenagem a Iemanjá, a rainha do mar. Na praia estava um grupo de homens e mulheres vestidos de branco dançando ao som de tambores e cantando músicas de candomblé. Eram uns vinte, sendo que a maioria era mulheres de saias longas, recheadas com enchimentos de arame internos, o que as deixavam redondas e volumosas para rodopiarem com graça cantando e batendo palmas.  Sem que a plateia esperasse, elas jogavam água de cheiro nas pessoas atraídas e encantada com o ritual.

Dois homens me chamaram atenção, um deles aparentava uns cinquenta anos, ele tinha os cabelos de mechas loiras, escovados, em um corte quase feminino. Vestia calça branca e uma bata branca bordada com brilhos sobre um barrigão saliente, tinha todos os trejeitos de um cabeleireiro gay que trabalhava em um salão perto do meu apartamento. Dava ordens junto com um moreno alto, gordo, que lembrava um porteiro de boate, físico do tipo armário. As mulheres os obedeciam como cordeirinhos, quanto mais a praia ficava cheia de gente a observá-los e turistas maravilhados fotografando cada movimento, mais os dois comandavam o espetáculo como se fossem um maestro conduzindo uma orquestra ensaiada nos mínimos detalhes.

Depois de muitas danças e cantorias as mulheres foram se organizando em fila, na frente seguiam algumas carregando jarros de flores e cestas com prendas a serem ofertadas a Iemanjá. Em um pequeno barco de pesca colocaram as oferendas, cinco pescadores remaram para o alto mar onde seriam entregues os presentes. O balé das mulheres rodopiando com suas saias brancas e turbantes enfeitados de flores, cantando, carregando cestas de oferendas deu um toque especial de magia na manhã ensolarada do Rio.

Noite de lua cheia, o calçadão lotado de pessoas indo e vindo ao som do mar batendo na praia, ao som das músicas dos peruanos tocando flautas e vendendo CDs, ao som do burburinho das vozes das pessoas bronzeadas e de crianças gritando e correndo atrás de bolinhas de sabão.

Paramos em um quiosque que tinha um conjunto tocando rock, cheio, lotado de turistas animados e dispostos a cantar todas as músicas dos anos oitenta. – mas meus amigos! Tinham umas gatonas vestidas de macacão de oncinha, coladas nos corpos queimados de sol. Mulheres de corpos sarados, outras de corpos a lá salsicha amarrada, e algumas morenas de deixar todos de queixo caído, corpos esculpidos pelas mãos divinas. Todas rebolavam com graça, com vontade, deixando os homens com olhares de cães famintos pedindo carne nova e macia.

Foi divertido ver os gringos se desdobrando para acompanhar as moças alegres com seus saltos enormes e ancas firmes. Ver a moçada chegando com sorriso no rosto e gingado no coração, ver gente de todas as idades batucando animados e dançando descontraídos, ver o brilho no olhar de cada um cantando feliz na linda Copacabana.

Um comentário em “Um dia de Rio

  1. Stephanie
    19 de julho de 2016

    Até agora estou rindo do homem de cueca/sunga no metrô hahahhaahah
    Quem nunca?

    Curtir

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Publicado em 2 de abril de 2016 por .
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