Vidas em contos

(por Rita Prates)

Toca

Há um homem no morro que se chama Toca. É um marginal que desenha o rosto de suas vítimas na parede da sala, são dezenas de homens e mulheres assassinados. Parece um imbecil risonho, que mata sempre com um sorriso abestalhado nos lábios. Baixo, magricelo, ossos das faces salientes, testa larga e cabelos ralos. Apesar dos vinte e um anos de idade, assemelha-se a um velho coveiro de filme de terror. Tem-se a impressão que  deve ter vindo das entranhas da terra e, por isso, leva as suas vítimas para o seu habitat.

Esse ser estranho, raquítico, meio envergado, olhos vidrados de tanto cheirar cola, não se abala com mais nada no mundo. Ele veio da toca, da toca da FEBEM onde ele se instalava. Lá ele ficava horas a fio, e foi batizado com o nome fiel a sua imagem sombria.

Nasceu na vila, parte baixa do morro. Vivia aprontando com a mãe, provocava brigas entre os moleques, faltava às aulas e constantemente os moradores se queixavam de suas arruaças. A mãe para ter tranqüilidade e poder cuidar dos outros filhos, mandou-o morar com a tia na parte alta do morro. Vivia à vontade para soltar papagaios e correr pela BR.

No morro era mais divertido, estava sempre na farra com os outros meninos, nada de escola, nada de obedecer a chata da tia, pois com o tempo os beliscões dela  já não lhe doíam. Grana era fácil de arranjar, os garotos do morro faziam serviçinhos de entrega de droga e de pequenos roubos. Recebiam uns trocados para comprarem roupas e tênis da moda, e acabavam experimentando e gostando do que vendiam maconha e crack.

Os marginais não iam muito com a cara dele, menino feio e raquítico, sua feiúra incomodava. Andava no cortado, se saísse da linha batiam nele, espancavam-no. Era o azarão, faziam dele sempre boi de piranha, colocavam-no na roda e lá vinha pancada. O rosto estava sempre inchado e roxo, e o corpo sempre moído de tanto levar chutes e murros. Para o seu desespero errava com medo de errar. Cansado das agressões sem sentido, quis se mandar para casa da mãe, mas não o deixaram escapulir, tinha que fazer entregas. Quem não obedecesse às ordens da chefia levava balas nas pernas, isso ele tinha medo, horror de ficar aleijado.

Sentia-se muito humilhado, odiava olhar-se no espelho. Era um nada. Para aliviar toda a sua vergonha cheirava cola em desatino, manhã, tarde e noite. Queria apanhar sem sentir dor, queria sufocar-se em drogas. Primeiro cola, depois maconha e agora se encasulava no crack.

Mandaram-no fazer uma entrega. Um jovem bem vestido esperava a encomenda na entrada da passarela, estaria próximo a uma camionete prata. O rapaz estava ansioso para pegar o pacote, mas quando ia efetuar o pagamento foram surpreendidos pelos tiras.

– Sujou! Sujou! Era pronta de fora, armaram o circo pra pegar a gente, gritou entre dentes.

Houve trocas de tiros entre o bando e a polícia. Desarmado e assustado Toca tratou logo de se esconder em um buraco rente ao bar. Pulou meio tonto e quase atirou em si mesmo, pois no buraco havia armas cobertas por folhas secas.

Encolheu-se como um feto naquele buraco acolhedor. Como ninguém podia vê-lo, chupou o dedo da mão e ficou encolhidinho como se fosse um bebê no ventre da mãe.

Mãe! Há quanto tempo não à via, ela o evitava, e por mais que se esforçasse não se lembrava da última vez que a beijou ou que foi acariciado. Da sua mão só se lembra dela no ar a lhe bater com violência. Dos seus lábios nenhum sorriso, nenhuma palavra de amor, nenhum beijo, só palavras rudes,  apenas gritos e pragas. Chamava-o de Coisa Ruim, Bestalhão, não se lembrava da mãe chamando-o pelo nome. Tratava-o como um verme, um escroto, que não fazia nada direito. Sempre lhe dizia que não teria futuro descente e que seria sempre um nada, um perdido.

Ali, naquele buraco, sentiu uma forte emoção, era como se fosse um colo a lhe proteger, a lhe acalentar. Chorou baixinho com o dedo na boca e o coração a palpitar, chorou sentido, suave, como jamais havia chorado na vida. Podiam atirar nele, morreria sereno, em paz consigo mesmo.

Acordou do transe com a pancada de uma metralhadora na sua cabeça, olhou para o alto e viu uma roda de policiais a cutucá-lo com as armas e a ordená-lo que saísse do seu ninho. Foi pisoteado, levou tapas no rosto e murros até dentro do camburão.

Descobriram o esconderijo das armas e prenderam alguns curiosos que logo foram soltos. O garoto, que mal sabia atirar, foi acusado pelos próprios companheiros de ter matado dois malandros de outra gangue. Queriam livrar suas caras, estavam com muita raiva dele ter se escondido justamente sobre as armas caras, raras e compradas com muita droga. Pelo prejuízo que tiveram o peste deveria pagar com cana pra deixar de ser débil.

Mandaram-no para a FEBEM, para o inferno. Se antes tinha que apanhar para passar a droga, agora a escola era outra. Aprendeu como abrir uma bolsa e roubar sem ser percebido, como assustar as suas vítimas e deixá-las indefesas, como ameaça-las com cacos de vidros e giletes, como invadir uma casa e saber escolher o que levar. Aprendeu a se calar para o grupo mais forte e usar todas as drogas.

Nesta escola de marginais aprendeu de tudo, mas a lição que mais o marcou para o resto de sua vida foi quando o abarrotaram de drogas, e ele, inocente, embarcou na onda. Lembra-se nitidamente de que havia um grupo de rapazes em círculo ao seu redor, que dois deles arrancaram os botões de sua calça e a abaixaram enquanto os outros riam sem parar. Lembra-se de que foi jogado sobre uma mesa e que o estupraram. Quando quis gritar, picaram o seu braço e o fizeram cheirar mais pó. De tempo em tempo, um corpo estranho o penetrava, porém já se sentia anestesiado e uma sensação estranha e distante tomou conta de todo o seu ser. Recorda-se de risos histéricos, de mãos brutas que lhe batiam nas nádegas e de um beijo. Sim, alguém beijou a sua boca com ternura.

Ficou na enfermaria mais de uma semana, ferido por dentro e por fora, destruído moralmente, Ouviu de tudo, inclusive que era a mais nova dama do pedaço.

Quando voltou para o pavilhão sentiu-se envergonhado, deprimido, revoltado, Como não podia reagir, ficava dia e noite entocado no porão. Pensaram que ele havia pirado.

Toca pra cá, Toca pra lá, assim ficou conhecido o magricela com olhar de débil que vivia na toca da FEBEM.

Um marginal altamente perigoso beirando os dezesseis anos, e que carregava nas costas mais crimes do que a sua pouca idade, se encantou com Toca. Fornecia-lhe drogas, mas em troca lhe exigia obrigações sexuais. Era preferível, já que assim não corria risco de ser violentado novamente.

Seu tempo de Toca fora útil, pois lá arquitetou a sua saída e a sua vingança.

Na maioridade foi libertado. Bom rapaz, sossegado, amigado, viado, tinha um jeito de bobo e não era perigoso para a sociedade. Lábios de Mel lhe dera uma arma para se defender e também lhe ensinara como manejá-la. Na despedida, um beijo com o mesmo sabor doce da trágica noite…

Voltou para a casa da tia no morro, lá se encontrou com outro companheiro de internato e saíram à caça. Em uma semana matou os três bandidos que o jogara na FEBEM e no final do mês não havia mais nenhum para pedir compaixão. Caçara-os como se fossem animais, um a um. Vingara do que fizeram com ele, da humilhação sofrida e sofrimento físico e psicológico que sempre o acompanham.

Quando matou o primeiro estava trêmulo de emoção e satisfação. Não podia mais desistir, tinha que se impor perante os demais senão seria morto por eles. Arquitetava cada nova emboscada com precisão e quando tombava um morto, surgia mais um membro para o bando, fortalecendo-o perante os outros marginais.

Matar passou a ser o seu maior prazer, assustar os habitantes quando passava pelos becos, eleva-lhe o ego. Quando aparece nos becos com o seu bando, sente-se um ator de um filme de faroeste, onde as pessoas entram para as suas casas e se escondem com medo de serem baleadas.

Apesar de não ser chegado a mulheres, escolheu uma menina de quinze anos para ser sua companheira. Gosta mais de bater na garota, de espancá-la perante seus companheiros e de humilhá-la. Impõe respeito. Afinal ele é o chefe, o machão, o raquítico poderoso.

A menina já era da pá virada quando passou a ser a sua companheira. Fora namorada de muitos malandros e se gabava de ter quem ela quisesse. Já havia desfeito dois casamentos. Toca pegou-a pelos cabelos, dominou-a e transformou-a em sua mulher. Se ela falasse que não gostava do que faziam, levava bordoadas. Tinha que lhe obedecer e fazer tudo que ele pedisse. Caso abrisse o bico, levava chumbo. Para ela, sexo gostoso nunca mais, para ele sexo gostoso era quando descia o morro e se encontrava com Lábios de Mel.

Toca está aí matando quem atravessa o seu caminho e ultimamente nem desce o morro porque fora jurado de morte. Passou dos limites quando começou a matar não só bandidos, mas também inocentes. O morro se revoltou contra ele e seu grupo, queria mata-lo.

A sua última vítima fora um trabalhador que só queria festejar a vitória do seu time. O torcedor fanático pegou uma arma do seu amigo e começou a atirar para o alto. Toca ficou furioso pelo resultado e pela barulheira. Falou para o jovem que também queria festejar, pediu o revólver emprestado, segurou a arma e apontou para a cabeça do alegre torcedor e disparou à queima roupa.  Com um sorriso débil, disse aos presentes que havia mandado o rapaz festejar no inferno.

Foi para casa soltar fogos, sinal de que matara mais um. Na sala, desenhou mais um bonequinho na parede da sala, para não perder a conta de quantos já havia mandado para o inferno.

Perseguido, sabe que em breve morrerá, mas como nada tem significado para ele, continuará a matar bandidos e inocentes, pois somente uma coisa lhe interessa, a de ser lembrado como o maior matador do morro.

Acho que agora será mesmo lembrado como o bandido mais temido. Cida encontrou com a companheira de Toca, grávida, com um enorme barrigão. Ela disse-lhe que ele ultimamente andava quieto, que só matava quem merecia, não por bondade e sim porque não queria ser morto antes do filho nascer. Não sabia se era por curiosidade ou por ternura de pai.

No morro, ultimamente, andavam ocorrendo várias brigas entre gangues, invasões a bares, a pequenos armazéns e roubos na BR. A polícia estava aborrecida de ter que constantemente subir na favela com todo o aparato policial, e não encontrar ninguém para pagar o pato.

Toca andou ditando normas de roubo e a punir quem não as cumprisse. Irritava-se vendo a polícia invadindo a sua área e espancando os seus amigos. Uma onda de violência entre bandidos e moradores fizera com que houvesse reação da população. Um informante deixou Toca em apuros. Ele se viu cercado por policiais sem chance de se esconder. Não teve outra, o grupo levou uns pescoções da tropa. Toca revidou uma ofensa e por isso levou dois tiros a queima roupa em ambas as pernas.

Está no Pronto Socorro, dizem as más línguas que ele ficará sem andar, que tiveram que cortar as duas pernas, porque não tinham como reconstituí-las. Boatos cheios de desejos de vingança, porém o mal venceu, ele ficará somente manco. Decepção de muitos que o queriam em cima de uma cadeira de rodas para o resto de sua vida.

Falam no morro que quando querem acabar com um marginal perigoso, ou o matam ou atiram em suas pernas. É grande o número de aleijados que andam de muletas pelo morro. Dizem que é tiro entre bandidos ou vindo da lei.

Toca ainda não saiu do hospital, mas em breve voltará, já avisou,,,.

– Azar do morro, já que ele voltará a amedrontar todos novamente, dizem angustiados os moradores. Azar de ele ter sobrevivido, de não terem dado um fim nessa figura escrota e malvada, falam as famílias dos inocentes mortos. Azar de quem é obrigado a conviver com ele cheio de medo e em constante agonia. Azar de Toca de não gostar desse mundo cruel, de odiar a si mesmo e a todos a sua volta, de nunca ter sido feliz.

 

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Publicado em 2 de abril de 2016 por e marcado .
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