Vidas em contos

(por Rita Prates)

Os velhinhos de Copa

Quando chego ao Rio de Janeiro e o carro passa por Copacabana parece que o sol brilha mais. É uma paisagem viva pulsando no movimento das ondas, no vai e vem das pessoas no calçadão, no brilho do olhar de admiração dos turistas, nas bolas saltitantes dos jogos de praia, nos quiosques coloridos com seus cachos de coco aplacando as sedes das pessoas bronzeadas pelo sol, nos casais de mãos dadas, nas crianças gritando excitadas a brincar na areia, na brisa morna a aliviar o calor dos corpos ardentes e das almas libertas, e nos milhares de senhorzinhos e senhorinhas andando agarrados aos seus acompanhantes ou em seus carrinhos de roda que substituem as suas pernas cansadas e fracas.

Copacabana abraça a todos, tem um carinho especial pelos idosos. Eles que vieram de todos os cantos e nações querem passar a sua ultima jornada nesse pequeno e tumultuado paraíso. Vejo-os sentados nos bancos aos pés das árvores retorcidas como eles. Elas os protegem do sol e os abanam com as suas folhas.

Alguns lúcidos contam pela milésima vez historias de suas vidas, de seus amores e de seus familiares. Uns estão tão ausentes que mal se lembram dos seus nomes. Encontram-se para admirarem a paisagem e verem o movimento intenso das pessoas indo e vindo da praia. Gostam de trocar causos e de dedilharem todos os remédios e doenças que tiveram ou que terão.

Uns velhinhos ficam mudos, aéreos, sentados em suas cadeiras de roda parecem que não veem nadam, mas se olharmos com mais atenção para os seus semblantes, veremos que estão ali calados porque estão viajando na estrada do tempo, relembrando o passado com os olhos no infinito. Hoje corpos inertes, ontem passos fortes. Hoje parados, quietos, perdidos no tempo que podiam e pouco fizeram, ontem sonhos de se aposentarem para curtirem a vida, porém o relógio do tempo é cruel com aqueles que deixaram para depois.

Um deles me disse sabiamente que a estrada da vida é cheia de quebra molas que vão interrompendo o caminho, para que possamos refletir e procurar viver com intensidade o hoje. Em uma determinada curva podemos deparar com obstáculos, onde você não poderá voltar para trás e, às vezes, nem seguir adiante, então viva o agora sem ficar imaginando o que virá.

Tem alguns que são velhos na aparência, mas são jovens no espirito. Mesmo com sinais de desgastes no corpo não se entregam, não ficam só observando, fazem suas caminhadas diárias pelo calçadão, praticam esportes na praia e sugam com avidez toda a energia ao seu redor. Tudo isso os fazem se sentir revigorados e mais leves. Não se entregam as dores e as queixas, travam uma luta diária pela liberdade de serem eles os donos dos seus próprios destinos. Estão em todos os lugares de Copa, nos supermercados, nos cinemas, nos teatros ou batendo um papo animado nos bares e quiosques da praia.

Porém há os velhinhos que são implicantes, autoritários e acreditam que a idade lhes permite tudo, desde gritar sem razão com os outros, a agredir com palavras, gestos e de forma impiedosa os que os cercam. São duros na fala, se tornam perversos e intoleráveis, e poucos conseguem lidar com eles. Morrem solitários em seus apartamentos, sem familiares e sem amor.

Os velhinhos amáveis, educados e gentis são cercados de cuidados e carinho, mesmo quando vivem sozinhos, há sempre alguém com um gesto carinhoso acolhendo-os. São figuras amenas, cultas ou não, prendada ou não, divertida ou não, mas carregam uma áurea de ternura e simpatia que os tornam diferentes. São aceitos porque sabem conviver com pessoas de todas as idades, e muitos são carinhosamente chamados pelos nomes onde passam pelas ruas.

O acordar, para alguns desses velhinhos é uma vitória, um recomeço, uma conquista diária. Seguindo seus destinos em passos apertados, sentem o pulsar da vida em suas finas e enfraquecidas veias, e vão contentes encontrar com os amigos no calçadão.

Copacabana é povoada de cabelos brancos de bengalas, de rugas, de passos lentos e olhares carentes. Tem em seu corpo o colo acolhedor de uma mãe, e em seus pés o caminhar de crianças e jovens que vão aprendendo a conviver com paciência com seus idosos. Copacabana é a vida que se vai nas cadeiras de roda, e é a vida que se renova nos carrinhos de bebê.

 

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Publicado em 2 de abril de 2016 por .
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