Vidas em contos

(por Rita Prates)

O gastoso das Alagoas

Estávamos na recepção do hotel negociando a troca de apartamentos quando um senhor aproximou-se do balcão. Aparentava mais de sessenta anos, cabelos tingidos de preto, rosto marcado pela idade, estatura mediana, troncudo, mãos cuidadosamente tratadas com unhas pintadas com base acetinada, e a do mindinho era bem comprida, por fim um enorme anel de formatura reluzia na mão direita.

Chegou brincando com a atendente, elogiou os seus cabelos, os olhos e teceu elogios sedutores. Sorriu para ela e um dente de ouro se destacou do lado esquerdo da boca, ela retribuiu educadamente com um sorriso. Chamou-o pelo nome e rapidamente foi para uma sala interna preparar a nossa transferência de apartamento. Ele não teve dúvidas, virou-se para o nosso lado e disparou a falar.

Perguntou se estávamos juntos, foi logo dizendo que se aposentou como procurador da justiça, que era fazendeiro e que gostava de aproveitar a vida. Contou-nos que fora casado por trinta e seis anos, mas que agora se sentia como um pássaro, pois podia voar para qualquer lugar, pousar em qualquer quarto e escolher o que comer, desde que fosse do bom e do melhor.

Estava hospedado no hotel, mas tinha quatro filhos que moravam na cidade. Não gostava de se ficar na casa deles, porque os netos o perturbavam e ele não se sentia a vontade, preferia o hotel, lá tinha mais liberdade e ao mesmo tempo podia trazer suas namoradas para curtirem a cidade com ele.

– Podem me chamar de Sr, Antônio, o gastoso do sertão.

Olhou para o meu namorado e me ignorando falou que adorava namorar mocinhas, garotas de família, gente de bem, mas fazia questão que elas tivessem namorados ou de preferência que fossem noivas. Segundo a sua teoria, moças comprometidas não lhe davam problemas, cabia aos seus namorados ouvirem as suas queixas, rabugices e cobranças.

Quanto a ele, o seu papel era de gastar com elas, presenteá-las, e em troca receber somente prazer, nada de reclamações e chateações.

 

– Toda mulher gosta de um namorado atencioso, sorriu debochado, ai eu assumo esse papel de gastoso, isto mesmo, sou o gastoso, aquele que enche de presentes as garotas e recebe delas carinho e muito sexo.

– Prestem atenção! Continuou piscando para o meu companheiro. Elas não são prostitutas, nem vagabundas, só ando com moças de família, gente direita, garotas que só querem que eu lhes dê presentes e agrados em troca de companhia. Há algum mal nisso? Tenho dinheiro e gasto com o que me dá prazer, e elas garantem isto.

De repente ele olha para mim e fala:

– Você é uma mulher madura, ambos são separados e estão namorando, isto é bom, mas para homens como nós dois é melhor namorar mulher jovem, disse se gabando para o meu namorado.

Na maior cara de pau diz que sempre vem para o hotel com uma nova acompanhante e que naquele dia ele estava só, mas que na próxima vez traria uma garota no ponto. Como sou bem humorada, levei na brincadeira e nos despedimos sorrindo do senhor gastoso das Alagoas.

Fomos para o apartamento e tive que retornar a recepção para pegar um documento que havia deixado no balcão. Não é que eu encontro o sr. Antônio, e ele todo sorridente veio falar comigo. Perguntou-me se eu tinha ficado chateada com os seus comentários, pois a sua intenção não era me deixar aborrecida com os conselhos que tinha dado ao meu namorado. Para amenizar me elogiou, e segurando em minhas mãos disse que eu era uma mulher interessante, atraente, e que poderíamos ser amigos. Sorrindo e escapulindo do gastoso, falei que não me importava com suas teorias sobre as mulheres e me despedi entrando no elevador.

Fiquei curiosa para saber sobre o Sr Antônio. Quem era essa peça tão caricata? Eram verdadeiras as suas historias?

Confirmado, ele era aposentado, ricaço, paquerador e gastoso.  Vinha sempre acompanhado de uma moça, o que provocava desconforto na direção do hotel. As meninas nem sempre eram apresentáveis, e os hóspedes se sentiam constrangidos com a presença destas garotas, pouco discretas no vestir e na forma de se comportar.

Quando ele não trazia uma acompanhante atacava as funcionárias do hotel, sempre com a mesma conversa – Quer um presente, pode escolher. – Se você ficar comigo te compro uns agrados. – Tenho bastante dinheiro para te presentear, é só ficar minha amiga. E assim ele cercava cada funcionária ou hospede, sempre oferecendo presentes em troca de favores sexuais.

Todos ficam em alerta máximo quando o seu Antônio avisa que virá na semana. A gerente sempre atenta avisa para as suas colaboradoras que se preparem para o ataque, que se organizem para a uma saída estratégica, e que acionem o alarme em caso de emergência. As funcionárias ficam sempre de prontidão aguardando a chegada indesejada do gastoso  garanhão.

Não podem fazer nada contra um hóspede tão ilustre, família tradicional, procurador aposentado e bajulado pelos seus puxa sacos. A gerente sorriu sem graça e disse que tinha recebido no dia anterior uma péssima notícia do Sr. Antônio, ele reservou um flat o ano todo a partir do próximo semestre. Estado de alerta constante, risco iminente das funcionárias serem atacadas com presentes e agrados do sedutor gastador, e a presença das garotas piriguetes circulando pelos corredores e restaurante. Falou que estava torcendo para que ele ficasse o maior tempo possível na sua fazenda ou visitando os filhos.

Queria encontrar novamente com o Sr. Antônio, na verdade, gostaria de vê-lo circulando pelo hotel com as suas acompanhantes. Ver as ações e reações dos hóspedes e como ele se comporta com elas. Observar como os funcionários atuam no contra-ataque às loucuras do gastoso e como elas se safam dele. Sr. Antônio é hilário, um personagem que todo autor gostaria de tê-lo em suas histórias. Pena que não encontrei mais o velho paquerador que se acha o máximo, que não tem senso de ridículo e se gaba por ter muito dinheiro para gastar com as suas pseudo – conquistas.

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Publicado em 2 de abril de 2016 por .
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