Vidas em contos

(por Rita Prates)

Confissões de uma passageira

Volto para casa, ocupo a cadeira da janela onde posso apreciar uma bela paisagem da região do circuito das águas de Minas Gerais. Apesar dos lindos campos, do céu claro com um sol preguiçoso e levemente aquecido, sinto cansaço no início da viagem só em imaginar que irá durar sete horas até chegar ao meu destino.

Tento me acomodar na cadeira pensando na perda de tempo, pois não consigo ler com o ônibus balançando, me dá enjôo. Ajeito-me procurando colocar a coluna firme, mas a cadeira não coopera, nada anatômica, desconfortável.

De repente senta ao meu lado uma jovem magrelinha, aparenta ter quarenta e cinco anos, pele sobre os ossos, pernas finas sustentadas por um jeans colado marcando o esqueleto. Jaqueta de couro e botas até o joelho. O rosto não é bonito, mas percebe-se que ela se acha, de tempo em tempo passa as mãos sobre os cabelos emplastados pela escova definitiva.

Puxa conversa comigo, nada mal, estava entediada, e para variar dei trela. Falou que a filha que estava sentada na cadeira ao lado sentia cólica, era a segunda vez que menstruava, tinha dó da pobrezinha.

Olho para a garota e vejo uma moça bonita e bem mais alta do que a miúda mãe, porém cada vez que a cólica apertava ela fazia caretas de dor.

Na minha bolsa tenho uma pequena farmácia com diversas opções de remédios, abri a minha bolsinha e mandei que escolhesse um para a filha. Ela aceitou prontamente, e na primeira parada, das muitas nas rodoviárias das cidades do itinerário, ela comprou água e a garota tomou o remédio. Meia hora depois a menina olhava para mim sorrindo e agradecendo por estar se sentindo bem melhor.

Voltamos agora para a mãe magrelinha e também tagarelinha.

Ótimo! Pensei. Vou me distrair ouvindo o falatório, assim o tempo passa mais depressa. Tenho fama de boa ouvinte, tenho o hábito de escutar com atenção, gosto de saber sobre as pessoas, suas vidas, seus sonhos.

A minha vizinha de cadeira começa falando que viver casada é muito difícil, que homem é egoísta e insensível. Largou o marido em casa para visitar a mãe doente. Baixou a voz para dizer que ele não é o pai da menina e nem do filho de dez e da outra filha de dezoito anos, ou seja, ela carregou para o casamento um kit com três filhos e ele três casamento fracassados.

O marido atual conheceu em um site de relacionamento, trocaram emails e se corresponderam por sete meses até se sentirem seguros para se conhecerem pessoalmente. Ele é mais velho, diz ela, complementa afirmando que apesar da idade ele é bonitão, loiro e que tem muito gás.

Gás para ela significa que ele é bom de cama. Falou que transam todos os dias, mas que antes de viajar estabeleceu regras em relação às trepadas. A partir de sua volta só fariam sexo três vezes por semana. Justifica que ele vai todas as noites para a cama uma da manhã e transam até as três, e que as sete ela tem que acordar para ir trabalhar.

Por causa do sexo intenso e diário, ela passa o dia abrindo e fechando a boca. Para piorar, diz sorrindo, trabalha o tempo todo em frente a um computador, e se assusta todas as vezes que a tela vem ao seu encontro ou pensando bem, o rosto é que vai de encontro à tela.

Todas as manhãs ele dorme até tarde e ela ralando o dia inteiro. Está emagrecendo muito, e o médico mandou que eles dessem uma controlada para que ela não adoecesse. Afirma que a transa é muito boa e que será difícil diminuir o entusiasmo do companheiro. Apesar de exausta, fica receosa de ele ir à cata de outra.

– Não sou um mulherão, mas este corpinho sabe fazer muito bem as coisas, por isso nunca fico só, fala baixinho no meu ouvido.

Conta que o marido é formado em engenharia civil, trabalhou em obras e que agora é vendedor de imóveis. Passam por dificuldades, já que ele não consegue fazer boas vendas. Implorou para que voltasse para a engenharia, mas ele se nega, o que a irrita muito, pois a maior parte da grana para a manutenção da casa vem dela.

– Imagina se isto é correto? Questiona ela.  – Acho que o que ele gosta mesmo é de sexo, ficou broxa para o trabalho.

Aborrecida, muda de assunto, fala da doença da mãe, do irmão rico e mergulha na irmã solteirona de quarenta e oito anos. Conta que ela nunca transou, é virgem e muito aborrecida.

Rindo, disse que gostaria de trazer a irmã para a cidade onde mora e arranjar um namorado para ela, se não desse certo, pagaria um cara para seduzi-la e levá-la para a cama.

– Se ela experimentar uma vez vai adorar, fala tampando a boca com as mãos. – Sexo é tudo de bom, e quem sabe ela gostando iria acabar com toda a sua implicância e chatice.

O telefone toca diversas vezes e a filha atende. É o ex-marido que ficou com os outros filhos, quer buscá-las na rodoviária. Ela pede à menina que descarte o pai para evitar ciúmes e brigas com o atual companheiro.

– O ex não larga do seu pé, diz sorrindo, sei  como deixar os homens malucos e loucos por mim, faço sexo gostoso.

Na quinta parada do ônibus ela consegue sentar junto com a filha. Fico novamente sozinha. Olho para trás e vejo as duas tagarelando e rindo sem parar.

Reflito sobre aquela mulher. Como pode uma pessoa que nunca viu a outra contar em pormenores a sua intimidade.

Precisamos conversar, falar das nossas vidas, de nossas angústias e felicidades. Muitas vezes não temos quem nos ouçam. Amigos e parentes vivem ocupados, ligados em seus próprios dramas e nem sempre estão dispostos a nos dar atenção, nos ouvir, só querem falar deles mesmos.

Falar com uma estranha que se dispôs a escutá-la, a ouvir as suas verdades e mentiras, os seus problemas, a ampará-la sem perguntas, sem críticas, é uma raridade. Ela provavelmente estava segura, pois a ouvinte só sabia o seu nome, nenhuma informação mais. Então porque não desabafar, liberar pelos caminhos e curvas da estrada as suas alegrias, grilos e tristezas. Limpou o armário, esvaziou as gavetas, ficou leve.

Fim de viagem. Demos adeus, boa sorte e um até breve que dificilmente acontecerá. Ela segue serelepe para casa e eu carrego na minha bagagem mais uma historia de vida de uma magrelinha, tagarela e convencida de sua sexualidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 2 de abril de 2016 por .
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