Vidas em contos

(por Rita Prates)

Coma: um, dois e três

 

Coma um

 

De repente uma voz, um som saído do nada, um apelo, pedido de clemência, de perdão. Chora ao meu lado, pega na minha mão e se diz apaixonado. Pede que volte para ele e que não o deixe jamais, sabe que estou muito doente, mas dê a eles mais algum tempo para curtirem juntos, fazerem aquela viagem tão sonhada.

Mesmo de olhos fechados sentia o seu tocar, o roçar dos lábios nos meus e as lágrimas escorridas nas palmas das mãos, quando as passava nos olhos molhados. Estava fraca, sabia que o seu fim estava próximo, mas sempre que ele pedia alguma coisa com paixão acabava cedendo. Pensou, por que não atender o último pedido do marido de saírem juntos revendo amigos e familiares, uma despedida memorável.

Como por encanto abriu os olhos depois de quarenta dias de coma profundo. Agiu como se nada tivesse acontecido, seguiram os planos e foram retornando as cidades onde reviam pessoas queridas, deixava em cada um o seu último beijo. Morreu na estrada quando voltava para casa. Dormiu depois de momentos doces de amor e não acordou mais. Ela sentiu o quanto ele a amava ao acompanha-la na sua última viagem.

Ele era um marido apaixonado pela esposa. Sofreu até a última lágrima secar, apesar da saudade voltou à rotina sentindo uma solidão sem fim. Um acontecimento inesperado surpreendeu as filhas e amigos na missa de um ano de despedida da amada. Ele aparece de braços dados com uma mulher idêntica à falecida, não era ela, mas o confortava imaginar que poderia ser. No ano seguinte após um banho de mar caiu morto na praia, Dizem que estava sorrindo, pois finalmente foi ao encontro da sua verdadeira paixão.


 

Coma dois

De repente uma voz, disse que tudo estava ruim sem a minha presença. Não foram felizes, mas era um par apesar de tudo. Jurou que não iria me abandonar, estava acostumado com as minhas mazelas, com as nossas brigas, e agora com os filhos crescidos poderiam recomeçar de outra forma, sem ciúmes e sem traições. Mesmo na situação em que se encontrava no hospital, sentia que a culpa e os erros sempre recaiam sobre ela, e que os acertos e a boa vontade pertenciam somente a ele.

A que ponto chegara, sentia-se esgotada, o que esperar daquela união tão desunida? Não tinha a menor vontade de levantar daquela cama, mas ao lembrar-se de cada momento vivido a dois, do casamento, da primeira briga, das traições, dos filhos praticamente criados por ela, do abandono nos finais de semana, das lágrimas sobre o travesseiro, tinha vontade de pular em cima dele e agarrá-lo pela goela, vomitar todos os desencantos passados e dos anos de sofrimento que ela humildemente aceitou.

Agora estava ali, entre o limite da vida e da morte. Sentia o peso dos anos perdidos de como fora insegura e medrosa. Todas as vezes que queria reagir ficava paralisada e depois caia em depressão.  Agora sim, estava realmente parada, inerte e sem reação. Pensou, pensou, encheu-se de pena e de raiva de si mesma, odiava aquela farsa a dois, de ter desperdiçado a vida com aquele homem que não amava. De repente uma força maior tomou conta de todo o seu ser, decidiu… – Vou sair de mim mesma, vou me libertar e buscar a minha felicidade e, pela primeira vez na vida sentia-se segura ao tomar uma decisão.

Abriu os olhos, sorriu para a enfermeira e pediu para que acendesse a luz. Quando recebeu alta, lá estava ele a espera-la, ela o olhou bem nos olhos e disse não. Não queria ir para casa, não queria continua a viver de aparências enganando os outros e a si mesma. Iria morar sozinha, buscar viver com dignidade, ser mais saudável e leve.

Assim fez, ele sem nada entender afirmava para todos que os medicamentos tinham mexido com a cabeça da mulher, deixando-a abobalhada, com o tempo ela voltaria e imploraria o seu perdão.

Nunca mais, pensou ela, o coma foi a oportunidade de se libertar. Nada mais a acorrentaria e a impediria de ser feliz


 

 

Coma três

De repente uma voz rouca, sofrida, implorando que eu voltasse e o colocasse no colo, precisava de mim, de meus cuidados, não tinha para quem contar as suas alegrias e tristezas, precisava do meu conforto, sentia-se desamparado. Os outros também não queriam deixa-la ir, suplicavam, falavam que ela era forte, que eles deixariam de brigar e que a ajudariam a realizar todos os pedidos que havia escrito no papel de um réveillon de anos atrás.

O que! Acharam o meu papel com a lista de desejos mais íntimos e secretos. Carregava o papel dobradinho e escondido na carteira de mão. Dos dez pedidos só dois conseguira realizar, o de reformar os banheiros e o de passar o carnaval no Rio, os outros demandavam tempo e dinheiro. Acharam o seu segredo e agora o usavam para trazê-la de volta, convencê-la que eles eram possíveis de serem realizados.

Que direito tinham em mexer em suas coisas, pensou revoltada. Sempre fora vigiada desde criança, problema de filha única. Desde que se casou os pais moravam próximo e em algumas ocasiões na sua casa. Sem liberdade foi perdendo seu espaço com a vinda dos filhos, seis brigões que transformavam a sua vida em alegrias e tristezas. Amava-os, mas ultimamente perdera o encanto tanto pelos filhos como pelo marido.

Foi acumulando com o tempo as frustrações, a falta de autonomia, o desejo de ir pelo mundo conhecendo novos mares, fazendo novos amigos, de sair daquele casulo escuro e sem ar. De repente se viu cheia de doenças, usava-as para manipulá-los, para ter um pouco mais de atenção, ou quem sabe para descontar neles e nela as suas culpas. A fraqueza da alma atacou o corpo tornando-o fraco, e quando se viu hospitalizada quis fugir, mas era tarde e agora esta ali, semimorta em uma cama de hospital.

O cansaço tomou conta de sua alma, perdera o entusiasmo pela vida, sentia-se derrotada, pois nunca fora ela mesma, sempre se dedicou a família e se esquecia dos seus sonhos em função deles. Os desejos tão simples e tão fortes ficaram escritos naquele papel amarelado, no auge da angústia abria-o e soletrava cada pedido como se fosse uma oração.

No último item estava escrito conhecer Paris, viu as fotos, achou a cidade maravilhosa. Visitaria todos os monumentos, passaria a semana conhecendo o Louvre, subiria na Torre Eiffel e avistaria a cidade iluminada, andaria como uma rainha pelas ruas centenárias, sentaria em uma mesa de bar e tomaria um café na calçada olhando o arco do triunfo.

Pensou que aquele era o momento ideal para realizar os seus desejos sem a interferência da família, seria a sua oportunidade de fazer finalmente o que queria. Mesmo com as “juras” dos filhos e do marido optou por seguir com seus planos de realizar os pedidos escritos em uma noite de réveillon, começaria pelo último. Decidiu partir sem o corpo, só com a alma para Paris, sorrindo desligou-se dos fios que a prendia na cama e saiu saltitante pelos corredores para pegar um táxi rumo ao aeroporto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 2 de abril de 2016 por .
%d blogueiros gostam disto: