Vidas em contos

(por Rita Prates)

Sobre Elas

Parte 1 

Desço a rua calmamente, sinto o ar fresco da manhã brincando com os meus cabelos e o sol tímido aquecendo todo o meu corpo. Viro à direita e entro no bosque dos Colibris. Caminho por um passeio estreito, cheio de curvas cercadas por gramas e coqueiros. Quando chego à última curva deparo com uma avenida e contemplo, encantada, a luz da manhã brilhando no espelho d’água da barragem.

Uma pista de Cooper vai seguindo silenciosa os contornos da mata. Árvores e coqueiros decoram a paisagem, refrescando com os seus galhos os quiosques coloridos com mesas e cadeiras repletas de exaustos atletas. Mais à frente vejo homens e mulheres fazendo caminhada, crianças andando de bicicletas, de patins, velhos sentados nos bancos ao redor do lago, admirando os gansos e patos que adoram nadar em fila. É bela a vista nesta manhã de inverno.

Gosto de observar as pessoas, imaginar como vivem, saber de suas histórias. Muitas vezes me pego ouvindo conversas de um aqui, outro acolá.  Se me interesso, reduzo o passo e ouço fragmentos de casos. Como somos cercados de problemas, a maioria usa da caminhada para desabafar, contar sobre a sua dor, ouvir conselhos, criticar o caos, e compartilhar suas alegrias.

Observo Tatiana vindo em minha direção, ela foi minha colega de escola, ultimamente fazemos caminhada quase todos os dias. Fico abismada com os seus relatos desenfreados, e me desculpem se pareço perversa, porém às vezes a procuro só para saber da última que ela aprontou.

Tatiana está cada dia mais magra e envelhecida. O rosto pálido e ressecado cobriu-a de marcadas profundas, a sua aparência é cada vez mais cadavérica. Tinha os cabelos pretos, mas ultimamente um mar de tristeza inundou-os de branco. O que lhe salva são os belos olhos verdes, que lhe alivia o semblante das tensões de um casamento desfeito recentemente. Aos cinquenta anos acha que o mundo desabou sobre ela, para se vingar, faz o que lhe vem à cabeça, não medindo as consequências.

Ela é a esposa típica décadas passadas. Estudou em um colégio de elite, onde pais abastados matriculavam suas filhas para tirarem o diploma e arranjarem bons casamentos. Para não fugir a regra, ela se casou com um rapaz da sociedade e teve três filhos. Foi professora durante alguns anos, depois começou a achar a profissão enfadonha e, quem sabe, a própria vida. O fato é que ela mudou do giz para a agulha, tornou-se uma dona de uma boutique de roupas finas.

– Você não foi à loja buscar a sua blusa. Fiquei sem saber se deveria entregar no seu serviço. O que houve?

– Desculpe-me, ando tão atarefada esta semana com um cliente que nem tive tempo de te ligar. Pode deixar que pegarei a blusa na loja. Agora me fale de você, como foi o seu final de semana?

A resposta da minha amiga durou exatamente vinte e cinco minutos, sem me dar um segundo sequer para pelo menos falar: Há! Nossa! Puxa vida!  Ela engatou uma primeira xingando o ex-marido, na segunda marcha foi a vez de falar mal da ex-sogra e na terceira disse que andava recebendo telefonemas anônimos das bruacas que o ex. catava na noite.

A primeira vez que Tatiana tocou no assunto de sua separação senti que ficara envergonhada, vi uma expressão de derrota em seu rosto. Expressão essa, que normalmente vejo nos rostos das mulheres que estão sofrendo com um relacionamento infeliz ou estão em processo de divorcio. Vejo nelas dor, vergonha, raiva e desilusão. Poucas se mostram aliviadas, normalmente são elas que tomam a atitude de se separar, a maioria demonstra angustia com a incerteza do amanhã, como cuidar dos filhos, da casa, do futuro, outras vêm uma forma de se libertar, de começar uma nova vida.

Tentei animá-la falando que na última semana havia estado com três amigas que também se divorciaram. É complicado quando se vê um casamento de anos virar de cabeça para baixo, o dela provocou um maremoto, balançou a sua estrutura emocional deixando-a agressiva, revoltada e disposta a guerrilhar com todos que estão ao redor do falecido.

Enquanto conversava com a minha angustiada amiga tive uma ideia que talvez nos ajudasse, chamaria umas mulheres que estavam passando por crises existenciais. Faríamos encontros onde pudéssemos extravasar as nossas magoas, desejos, perdas e conquistas. Onde pudéssemos abrir os nossos corações e, quem sabe, nos ajudarmos mutualmente.

Valéria, Katia, Heidi, Laura, Aline e Tati aceitaram participar dos encontros, estavam dispostas a se virarem pelo avesso, se reencontrarem.

No primeiro encontro, sentadas nas poltronas da sala de uma terapeuta, que se prontificou em nos dar apoio, fizemos um pacto de que não poderíamos comentar nossos encontros com ninguém, que tudo o que  falássemos seria um segredo só nosso. Tentaríamos nos ajudar sem bloqueios, ouvindo umas as outras sem criticas ou censuras, apenas tentando encontrar uma melhor alternativa de viver com mais qualidade e prazer. Quem não gostasse poderia sair do grupo, mas teria que manter os segredos das revelações, um pacto ético de lealdade feminina.

Ficou decidido que cada uma se apresentaria ao grupo sem interferência ou opiniões das demais. Depois, nos encontros seguintes, iriamos debatendo os temas que achássemos mais interessantes. Como não havia um script, cada uma poderia se expressar da maneira que achasse mais adequada. A primeira a falar foi a corajosa Valéria que estufou o peito, encarou o grupo e se entregou por inteiro.

Parte 2

Há uns dois meses acordei mal-humorada, se pudesse passaria o dia trancada no meu quarto e só apareceria à noite. É raro eu me sentir envergonhada, mas tem noites em que eu passo dos limites. Tenho consciência de não sou uma mulher bonita. Sou baixa, meio gordinha, cabelos cor de mel e escorridos até os ombros, porém quando me olho no espelho sei que o meu todo agrada.

Às vezes penso que os homens se envolvem comigo porque gosto de conversar, sou bem informada e estou sempre disposta a trocar ideias. Pareço pretensiosa, mas não é bem assim, na verdade sei como agradar as minhas conquistas, sempre os encontros acabam na cama onde trocamos opiniões e carícias.

Pois é, falando em casos e cama, é que há três meses acordei com ressaca moral. Acho que passei dos limites na noite anterior. Eu já havia chegado calibrada na festa de uma amiga, e, de cara, vejo alguém que me toca profundamente, o sujeito estava acompanhado e agarrado a uma garota aos beijos. Fiquei enciumada, procurei cercá-lo com olhares e insinuações durante uma boa parte da noite. Na primeira oportunidade estava na cozinha ajudando-o a preparar a sua milésima bebida.

O tremor da paixão me tirou o juízo, comecei a me roçar nele, passar a mão sobre a sua calça, e quando o vi excitado abri o seu zíper e tirei o que era meu para fora. Passou um redemoinho entre nós e fomos parar dentro de um banheiro no quarto da empregada. Ouvi vozes nos procurando, enquanto ele me arrancava a roupa, me sugava os seios e me penetrava como um tsunami invadindo a praia, derrubando casas e arrancando árvores. Com ele me entrego totalmente, me arrisco a morrer afogada, me exponho por inteiro e deixo que ele me dobre, me vire e me revire em qualquer lugar.

Fizemos sexo várias vezes, mas quando acordei não estava no banheiro e sim deitada em uma colcha no chão do quarto da empregada, ao meu redor havia outros casais seminus. Sai de fininho sem fazer barulho. Em casa fiquei me olhando no espelho do meu quarto sem saber a extensão do vexame que dei, e em que proporção chegou.

Procuro viver a minha vida intensamente, sem dar muita satisfação aos outros, mas sei que tenho que ser cautelosa com a minha imagem. Sai do interior muito nova, cursei a faculdade de engenharia e depois fiz o mestrado. Considero-me uma boa profissional, procuro concentrar boa parte da minha energia na empresa e como professora universitária .

Voltando ao espelho, se eu resolvesse me virar pelo avesso ficaria horrorizada comigo. Não pelo sangue correndo pelas minhas veias ou pelos órgãos trabalhando agitados para acompanhar o ritmo louco do meu dia a dia. Lógico que não é isto, a realidade é que não quero me expor, não quero me desnudar, não quero me enfrentar cara a cara. Sei que já não sou mais uma jovem, que a minha fase de porra-louquice já deveria ter acabado, mas existe algo de irresponsável dentro de mim que me tira do sério e me agita para essa vida mundana.

– Um filho, vocês já tiraram um filho de suas entranhas? Isto mesmo! Já fizeram um aborto? Eu fiz. Sabe por quê? Por que eu literalmente não sabia quem era o pai e, se soubesse, nenhum dos dois seria um bom para o meu filho. A situação chegou a tal ponto que quando cheguei em casa acompanhada de um, lá estava o outro dormindo na minha cama. A minha amiga, que morava comigo, entrou em parafuso, e com receio de um quebra-quebra falou que estava dormindo com o namorado. Fiquei uma semana me condenando e para complicar a minha turbulência emocional, o DIU falhou e eu engravidei.

A decisão de tirar a criança não me deixou abalada, esta seria a segunda vez que eu não me permitia ser mãe. Enfrentei o aborto corajosamente, mas nunca me recuperei do aborto anterior. O anterior foi muito sofrido, pois quando me engravidei fiquei orgulhosa porque teria um filho de um professor que eu adorava e o respeitava como intelectual. Ele era para mim o mestre dos mestres. Mestre de toda a minha ideologia, mestre na cama, mestre na arte de conquistar mulheres e mestre na sua insanidade de se sentir um ser superior. Ele se acha o único, desceu a terra para transmitir o seu saber e não para reproduzir, seria o último da linhagem.

Obrigou-me a abortar. Ele me feriu profundamente, me deixou descomprometida com a vida, com o futuro. Até hoje me arrependo de não ter tido o meu filho. Olho para as crianças que tem a mesma idade dele e me angustio, sofro profundamente. Era um filho desejado e eu não lutei pela sua vida. Acredito que grande parte da minha desorganização emocional está em tê-lo expulsado de mim, abortado em troca da promessa que ficaríamos juntos para sempre. O que me sobrou são momentos de loucura, prêmio de consolação dentro de um banheiro.

Para fugir desse homem e do meu sofrimento eterno, entrei de cabeça em um relacionamento com um físico, um místico que conheci no Rio de Janeiro. Pelo menos ele me trás vibrações cósmicas positivas e energéticas.

Faz duas semanas que entrei em sintonia com o universo, sinto vibrações positivas pela casa e altas vibrações na cama. O meu místico Tadeu é estupendo, capta energias positivas e as transformam em ótimas horas de amor. Isto mesmo, energia, horas e horas de muito sexo, tudo envolve muita concentração e entrega total.

Ultimamente, passo a noite em Alfa, vibrando a cada nova posição de ioga e me devoto mais de corpo do que de alma na integração com o além. Cada relação pode durar horas a fio, Tadeu tem domínio total sobre o seu “corpo”, consegue segurar cada gozo, como um faquir em cima de uma cama de pregos. Tive que aprender algumas posições de yoga para não sentir câimbra e para não cansarmos. Galopamos pelos prados, escalamos paredes e viajamos nas nuvens enfumaçadas do meu quarto.

É um sarro quando conto para as minhas amigas, em detalhes, as trepadas fantásticas, sempre as deixo com inveja. Quando chego elas ficam a minha volta pedindo para que eu lhes ensine novas posições, dão gargalhadas quando sou obrigada a me contorcer para mostrá-las como se faz. Todas estão adorando as aulas de sexo com mantras, dizem que os seus companheiros ficam espantados, curiosos e muitas vezes desconfiados. Aprovam as novidades, dizem que relaxam, e quase sempre pedem para repetir algumas lições.

Ele é uma figurinha esquisita, alto, magérrimo e com uma cascata na cabeça. Algo como um rabo de cavalo bem no alto do cocuruto, fazendo com que os seus belos, lisos e loiros fios caiam em forma de cascata pelo rosto. Fico envergonhada com a alegoria, sutilmente procuro desfazer o nó do vexame que passaria saindo acompanhada de um jovem carregando uma queda d’agua, porém muitas vezes sou obrigada a desfilar com o meu louco alienígena pela faculdade.

Justifico para os incrédulos que ele é um gênio, e pela tradição todo gênio é um louco. Fico sempre atenta e preocupada com o look do meu novíssimo namorado, afinal não posso deixar que as línguas mal amadas acabem com a minha impecável reputação.

– Esta sou eu. – disse Valeria olhando para as mulheres a sua volta. O combinado é que cada uma fale de si resumidamente. – Agora passo a palavra para…

Kátia levantou a mão pedindo a palavra.

 Parte 3

Desde mocinha estudava e lecionava para operários de uma mineradora, e depois que me formei em engenharia continuei na empresa. Um belo dia surgiu um cidadão simpático que se encantou com toda a minha garra, e seduzida, cansada de lutar sozinha me entreguei ao amor, às juras e promessas vãs.

Tive duas filhas graciosas que me cercaram de alegrias e bastante fraudas. Larguei o emprego e dediquei-me a elas mais de uma década. Após duas doenças graves diagnosticadas como de fundo emocional, causadas por frustrações pessoal e profissional, tive o apoio do meu médico para retornar ao trabalho, apesar do meu marido discordar veementemente.

O meu digníssimo esposo sempre esteve atarefado investindo no seu futuro político, e com isso fui colocada em segundo plano. A família passou a servir só de fachada para usá-la em grandes eventos, para mostrar o quanto somos felizes, saudáveis e normais Na nossa relação faltam beijos e abraços, mas não faltam cobranças em relação aos afazeres da casa e ao cuidado com as crianças.

O trabalho veio para mim como uma benção. Na verdade eu não batalhei para consegui-lo. Não foi como milhões de brasileiros que saem de porta em porta entregando os seus currículos e mendigando uma oportunidade de trabalho. Como o meu marido ocupa um alto cargo público, as portas se abriram rapidamente para mim, favorecendo-me com uma ótima colocação profissional em uma empresa estatal.

Ultimamente estou em lua de mel comigo. O meu marido foi transferido para Brasília e não quis me levar por motivos óbvios, procurou me convencer a ficar, devido ao meu emprego e ao bem estar das crianças. Foi um alívio não ir, pois estou me sentindo leve e solta, pareço uma adolescente quando os pais resolvem viajar e a deixa tomando conta da casa.

Agora sou dona da minha vida. Toda gentileza do meu marido é para uso externo, entretanto para uso interno se transforma em um ditador. Exige a casa sempre limpa, nada fora do lugar, e se alguém deixa um sapato passeando pelo quarto ele fica uma fúria, parece que vivemos em um quartel general, tudo deve estar em perfeita ordem.

Essa leveza de estar só e ser dona do meu nariz fez com que eu gostasse mais de mim. Agora posso tomar decisões simples, mas de grande relevância para eu superar as minhas inseguranças. Passei a cultuar o meu corpo, gostar do meu jeito de ser e de me achar cada vez mais sensual.

Na verdade esta transformação tem uma razão de forro íntimo. Antes de o meu marido mudar-se para Brasília estávamos numa fase de constantes atritos. Brigávamos por pequenas e grandes coisas, porém o ponto crucial da discórdia era na cama. Ele me acusava de fria, distante e monótona. Por mais que me esforçasse para agradá-lo era criticada e nunca incentivada. Quando ele me procurava eu gelava só com o seu toque, esfriava de medo de sair ferida novamente.

A primeira atitude que tomei quando ele se mudou foi marcar uma consulta com uma atendente profissional. Garota de programa que anuncia nos jornais que é jovem, atraente, fogosa e sedutora, pronta para o seu delírio e prazer ilimitado. Parece loucura, estranho à primeira vista, mas como o meu psicólogo não conseguia me convencer de que eu não era nenhum iceberg, apelei para um tratamento de choque e fui à busca da cura com uma quente e sedutora prostituta.

O primeiro problema que tive que enfrentar com essa “aventura amorosa” foi me preparar fisicamente para o encontro. Não podia aparecer de cara limpa e ser reconhecida, tinha que me disfarçar. Coloquei uma peruca preta, um vestido largo e um casaco comprido, fazendo-me parecer uma tia do interior. Vesti toda essa parafernália no Shopping,  peguei um táxi e segui para o hotel combinado.

Cheguei ao hotel dez minutos antes do encontro, precisava me preparar psicologicamente. Fiquei apavorada com o que estava fazendo, não conseguia raciocinar, e amedrontada resolvi ir embora. Quando abri a porta para sair dei de cara com uma moça loira, bonita e sorridente. Ela era alta, magra, bem vestida, aparentava uns vinte e poucos anos, era o oposto do que eu poderia imaginar como garota de programa. Minhas pernas tremiam tanto que mal consegui tirar o pé do chão para deixá-la entrar no quarto. Quando fechei a porta vi o meu reflexo no enorme espelho sobre a cama e me achei ridícula, parecia uma prostituta do cais do porto. A moça aparentava ser uma jovem e pura garota de família. Ela me olhou com simpatia e sorriu. Sentou-se na cama e falou:

– O programa será só entre nós ou espera mais alguém?

Fiquei atônica com o que acabara de ouvir, o meu coração disparou e precisei sentar para não cair. Só faltava a garota pular sobre mim.

– Espere, não é bem isso! – Disse-lhe com a voz rouca e baixa.

Ela me lançou um olhar de interrogação e falou delicadamente:

– É a sua primeira vez com uma mulher? – Não se preocupe, serei carinhosa, vai gostar do que farei com você, ira enlouquecer de desejos e te saciarei até a ultima gota.

Ela se aproximou de mansinho, pegou na minha mão e alisou os meus cabelos. Desesperei-me, amarelei, e finalmente antes que o pior acontecesse me recompus e falei com a voz baixa e trêmula, quase um sussurro.

– Calma moça, não é bem isso o que estou querendo de você. Está tudo errado, sinto-me ridícula com essa roupa e com essa peruca, vou te explicar porque te chamei aqui.

A garota me olhava com cara de compaixão na medida em que eu ia contando-lhe a razão daquele encontro.

– Sou casada, tenho filhos e um marido que me tortura chamando-me de fria na cama. Toda vez que fazemos sexo ele me critica, me humilha. Estou aqui em busca da ajuda de uma profissional como você, que vive para o prazer. Ensine-me a derreter esse gelo que há em mim, a mexer com o corpo, a seduzir e ser desejada.

Percebendo que ela me ouvia atentamente continuei a falar mais alto, mas ainda nervosa.

– Estou envergonhada de estar aqui me expondo, mostrando a minha fraqueza, não suporto mais ser tão criticada, humilhada como mulher e esposa. Quero que me ensine a descobrir como se faz para que um homem tenha desejo e goste de fazer sexo comigo?

Senti a mão dela apertando a minha e me olhando nos olhos falou calmamente, – Você foi muito corajosa vindo aqui, deve estar mesmo angustiada. Há garotas de programa que não gostam deste tipo de proposta, são vingativas e obrigam a cliente a aprender na prática a fazer coisas que não gostaria de fazer com outra mulher. As clientes se submetem para evitar escândalos.

Fiquei gelada e balbuciei, – Não é por curiosidade que te procurei. Foi uma ideia ridícula para salvar o meu casamento. Não quero te ofender e nem prejudicar o seu trabalho. Por favor, esqueça tudo, falei em pé próxima à porta. Eu realmente agi como uma esposa a beira do precipício. Está aqui o que tenho de te pagar, e te peço mil desculpas se te ofendi.

– Calma! Respondeu a moça puxando-me de volta para a cama. – Não vou te atacar e nem fazer escândalos. Tenho também um nome e uma família a zelar. Estou no último ano de faculdade de psicologia e posso tentar te ajudar, afinal faz parte da minha profissão.

Não acreditava no que ouvia, era bom demais, após a tempestade achei finalmente um porto seguro. Pensando bem, nem tão seguro, afinal estava em um quarto de hotel com uma prostituta.

Ela começou me interrogando como uma verdadeira terapeuta. Queria saber sobre o meu marido, como ele se comportava na cama, como eu me sentia e como fazíamos sexo.

O encontro amoroso que seria de uma hora durou toda tarde. A jovem e experiente loirinha falou-me de como eram os homens, os seus anseios, os seus desejos mais íntimos, as suas taras e o que diziam não gostar, mas que acabavam fazendo com gozo. Ensinou-me a usar as mãos, fez algumas posições que me deixou rubra, gestos que excitam um homem, palavras e palavrões que eles adoram e tudo mais.

Fiquei maravilhada, ela descreveu os amantes que mais a marcaram e como ela os enlouquecia. Tive dicas fantásticas no curso teórico de sexo intensivo de curta duração com uma expert do ramo. Quando acabamos a consulta paguei em dobro pelo atendimento vip. Torço de coração para que aquela garota faça sucesso como terapeuta, pois ela é dedicada, atenciosa com o cliente, uma ótima profissional, principalmente na arte de ensinar sexo a pessoas bloqueadas como eu.

Despedimos com beijinhos, mas sem trocarmos telefones e nem os nossos verdadeiros nomes. Foi algo inesquecível, inacreditável e surreal. Fui muito louca, inconsequente, mas valeu, nunca mais esquecei aquela tarde. Tratei de colocar no papel todas as lições aprendidas. Estas lições de sexo foram fundamentais na minha vida, mudaram radicalmente o meu modo de ser com os homens. Homens…

A “terapeuta” me alertara para que eu fosse seduzindo gradativamente o meu marido, sem atropelos, com charme e confiança teria sucesso. Se eu fosse direto ao pote ele estranharia a minha nova performance na cama, e passaria a achar que eu estava com um amante.

– Amante! Credo!

Meu Deus do Céu! Meu marido quase me bateu na cama e me estrangulou querendo saber onde havia aprendido a ficar metendo o dedo onde não devia. Eu estava muito ansiosa para começar a praticar as lições de sexo. Vesti uma camisola nova, sex e me lancei sobre a minha presa, antes havia tomado alguns goles para criar coragem.

– Benzinho! Hoje vai ser bem gostoso, disse com um ar de pantera de zoológico. Em relação ao termo benzinho, é como eu o chamo em todos os nossos momentos, inclusive nos de raiva, esse vem recheado de deboche com cobertura de ironia.

Voltando ao benzinho, que já estava pré-aquecido, sentei-me na cama e por um instante pedi a Pomba-Gira que ajudasse a me tornar uma esposa fogosa.  Benzinho me puxou para cima dele e começou a me apertar sobre ele. Fechei os olhos para não me lembrar do seu olhar de reprovação, quando achava que eu não estava indo bem. Para atiçar o meu desejo o substitui pelo belo ator da novela das oito, que é sedutor e garanhão.

Primeira lição, utilizar as mãos com suavidade e arte, pesquisando o corpo do companheiro. Minhas mãos aos poucos foram ficando atrevidas, deslizavam pelos contornos do meu ator preferido, descobrindo pelos em locais interessantes, pequenas elevações na barriga e coxas tentadoras.

Benzinho gemia de prazer, anos de casada e eu nunca tivera a coragem de conhecê-lo por inteiro, frente e verso. Ele me possuía com tanta sede que eu, burra e apressadinha excedi e quis avançar para a lição de número quinze. Não deu outra, ele puxou a minha mão com força e quase destronca o meu dedo. O seu gozo foi tão violento quanto o seu gesto com o meu “fura bolo”. O fio terra funcionou.

– Kátia! O que é isso? Enlouqueceu!  O que você anda aprontando?

– Desculpe-me. – Disse-lhe nervosa. – Li em uma revista que alguns homens gostam desse carinho.

Irado, espumando pelas ventas, disse que ele era muito macho e não aceitava esse tipo de sacanagem.

Trêmula e sem palavras corri para o banheiro e chorei de raiva, porém jurei que ele iria engolir aquelas palavras. Hoje, posso dizer que já fiz todas as lições, muitas outras inventadas por mim e também por “eles”. Cumpri a minha promessa, ”fura bolo” hoje convive muito bem conosco, em muitas ocasiões é solicitado pelo machão para participar do nosso bacanalzinho particular.

Parte 4

Depois da minha longa conversa com a garota de programa me transformei, me libertei, e cada dia estou mais safada e sedutora. Agora, cá pra nós, benzinho tinha razão, eu era um fracasso. Casei virgem e inexperiente, e para piorar o meu desempenho só ouvia críticas e deboches de quem deveria me ensinar a arte de amar.

Assumo que eu era péssima de cama. O meu desempenho melhorou mil por cento graças a minha coragem de mudar, de procurar ajuda, e ter a sorte de encontrar uma profissional do sexo que também era psicóloga. Hoje em dia existem vários cursos ensinando como seduzir o companheiro sem precisar apelar para prostitutas. Vale a pena fazer, tenho certeza que vai se divertir.

Mantenho o meu casamento mesmo sentindo apenas amor pelos meus filhos. A minha relação afetiva com o meu marido se resume a um contrato. Tenho de tudo, luxo, lazer e status. Procuro preservar esta sociedade pelos dividendos que recebo.

Ele está indo muito bem no trabalho e com as mulheres. Descobri no bolso do seu terno um bilhete de uma garota agradecendo o encontro, o presente e que esperava ansiosa o seu regresso. Li, dobrei e o guardei no mesmo lugar em que o encontrei. Não falei nada, desprezei a informação, mas passei a luxar mais, obrigando-o a gastar o dobro comigo e com as crianças.

Depois de ter encontrado o bilhete resolvi que eu também teria a minha vida sexual a parte. Estava cansada de ser usada, queria me vingar, talvez de mim mesma. E a ocasião surgiu logo em seguida. Estava em reunião da diretoria quando vi um par de olhos gulosos nas minhas pernas, tentei me recompor, puxei a barra da saia para baixo, mas roupa de malha justa costuma ser teimosa e quer sempre deixar à mostra coxas saudáveis protegidas por meias finas. Ao término da reunião o espião de pernas tratou logo de se aproximar.

– Venho te observando há algum tempo e fico admirado com as suas colocações nas reuniões, são claras e objetivas, disse o espião com a voz sedutora. – Posso acompanha-la até a sua sala?

Claro que aceitei, não pelo elogio e sim pela insistência do olhar no conteúdo do vestido. Novas investidas foram acontecendo, e como não poderia deixar de ser, estendíamos os nossos papos para um barzinho calmo e agradável no extremo oposto da cidade.

Tivemos que viajar a negócio pela empresa e aproveitamos para trocarmos confidências. Ele me contou da filha e de um casamento de quinze anos bastante enfadonho. Descontraídos com a desobrigação de termos alguma obrigação, e ligeiramente embriagados fomos para a varanda do apartamento dele tomar o último drink. A brisa do mar me acariciava o rosto e levantava brincalhona o meu vestido mostrando as minhas pernas bronzeadas.

Envolvida pela cumplicidade da noite deixei que a mão doce e macia do meu colega descesse suavemente entre as minhas pernas e subisse até os meus seios. Não resisti aos abraços e beijos, apliquei três lições de uma só vez e me entreguei sem culpa.

Belo começo para uma nova e infiel esposa, principalmente para alguém que sempre se sentia um fracasso como mulher. Tornei-me mais segurança, passei a ter prazer em uma relação e achar agradável e gostoso sentir-me completa. Como bons colegas de trabalho e de cama fomos eliminando aos pouco a monotonia dos nossos casamentos e dando asas as nossas imaginações.

Estava tudo perfeito demais nestes oito meses de encontros clandestinos, muito sexo e diversão nas tardes de “visitas a empresas”. Porém um tremor de seis graus centígrados na escala Richter nos afetou, foi quando o meu querido gerente quis planejar algo fora do combinado entre nós. Segundo ele deveríamos conversar com os nossos cônjuges sobre o nosso relacionamento, depois propormos uma separação amigável. Para arrematar, deixaríamos os nossos pobres e traídos parceiros com os nossos filhos, e após o divórcio casaríamos imediatamente e viveríamos felizes para sempre.

Correu um frio na minha espinha, uma tremedeira baixou em mim como um caboclo em um terreiro espírita. Após um esforço sobrenatural falei, – Você está ficando louco?

Ele me olhou esquisito, com a cara de quem não sabia em que parte eu não havia entendido o plano.

– Qual foi o item que você não entendeu? Venha, vou explicar-lhe novamente cada ponto. – Disse-me ele calmamente.

Olhei bem nos olhos dele e disparei a rir nervosa e falei – Me perdoe, mas é você que não entendeu nada do que estamos fazendo até agora. Nós estávamos entediados com os nossos casamentos, cheios da rotina, mas isso não significa que devemos deixar as nossas famílias e nos divorciarmos.

Ele me lançou um olhar furioso e gritou, – Você está querendo dizer que não me ama? Que é tudo brincadeirinha? Distração para matar a monotonia?  Que sou objeto de prazer?

Esperei que ele tomasse ar e completei. – Eu tenho prazer com você, gosto dos nossos encontros, das nossas maluquices, mas eu não quero mais do que isso, entende! Apesar de todo o tédio de anos de casada, eu não vou me separar do meu marido e nem dos meus filhos. Mesmo que você modifique o item três, a resposta é não. Vou tentar segurar no “até que a morte nos separe”, não foi isso que você jurou no dia do seu casamento?

– Chega! É o fim! Gritou apontando o dedo para mim. A sua fala mostra claramente que você me usou, que eu fui um simples objeto de prazer, um brinquedo na cama, dá próxima vez pegue um stripper, que não lhe criará problemas. Vestiu-se rapidamente e saiu que nem uma bala, mas ainda deu tempo de alcançá-lo na escada e exigir que me deixasse no Shopping para pegar o meu carro.

Deste dia em diante fui tratada como uma inimiga. Evitava cruzar comigo nos corredores e nas reuniões era seco e agressivo. Após cinco meses de cara fechada começou a me cercar, queria se encontrar comigo para colocar alguns pontos nos is. Fomos a um restaurante discreto, porém fui preparada para a nossa reunião extraconjugal, pedi que ele me ouvisse até o fim, sem me interromper.

Tentei mostrar a ele que não queria me envolver emocionalmente, queria curtir somente o desejo da carne, do prazer, e não penetrar nas profundezas do coração. O melhor seria não nos vermos mais a sós, pois os nossos planos de vida eram diferentes. Era perigoso reatarmos, mais tarde poderiam ocorrer novos conflitos e a artilharia viria pesada, destruindo o meu frágil casamento, nada de riscos.

Se estiverem pensando que eu me assustei, que me encolhi na procura do meu eu mulher, se enganaram. Estou ótima, cuido demais da minha aparência, potes de cremes caros e milagrosos, academias e salões de beleza. Compramos um apartamento chiquérrimo em um bairro nobre da capital, viajamos diversas vezes para o exterior e as minhas filhas estão cada dia mais cheias de mimo.

O meu marido continua gentil com o sexo oposto, participa ativamente na manutenção das mulheres do Planalto Central. Quanto a mim, para ficar sempre atualizada sobre qualidade me envolvi com um gerente de Controle de Produção. Nós temos algo em comum, não queremos misturar família com prazer, procuramos manter os nossos lares longe de quaisquer ameaças e devaneios.

– Tempo, amigas, tempo… Estou esgotada, falei muito de mim, falei o que eu nunca imaginava que sairia de minha boca, sinto-me mais leve e disposta a ouvi-las, mas antes de encararmos mais uma complicada colega de angustia, vamos fazer um lanche.

Após uma circulada de tira gosto e sucos, todas se posicionaram em suas poltronas dispostas a ouvirem a próxima colega. Heide começou a falar como se estivesse sozinha em um confessionário.

Parte 5

Começarei contando o que se passou comigo há dois dias quando chegava a minha casa.

A dor no estômago começou novamente, por coincidência foi logo após o táxi parar em frente ao meu prédio. Despedi de minha amiga, esperei o carro arrancar e entrei no meu apartamento.

A sala estava escura e mal dava para distinguir as cores dos móveis. Acendi a luz e olhei para o relógio na parede, dezessete horas. Estava claro lá fora e ali dentro escuro. Cheguei até a janela e abri as cortinas para que a luz voltasse a invadir e alegrar a sala novamente. Tudo estava em ordem, a televisão estava desligada, foi a maior que encontrei na loja, queria conhecer o mundo pela telinha. Viajo de mãos dadas com o repórter e, muitas vezes, sinto como se realmente estivesse lá, me teletransporto para aqueles lugares lindos, onde experimento alimentos exóticos, me encanto com as paisagens e com as pessoas.

O meu marido não gosta de viajar, acaba que fico refém de filhos que sempre optam de ir para cidades a beira mar, o que não é a minha praia. Agora que temos condições de passear, ele alega cansaço, preguiça, cria tanto caso que desisti, me conformo vendo o mundo sentada na poltrona.

Respirei o ar puro que entrava pela janela e fui em direção ao meu quarto, segui pelo corredor escuro onde todas as portas dos cômodos estavam fechadas. Entrei no quarto e puxei as cortinas, quando avancei em direção a janela para libertar o ar pesado que me sufocava, avisto o meu marido sentado na poltrona com uma cara enfezada. Primeiro me repreendeu porque havia ficado na rua mais de duas horas e, segundo, porque estava abrindo as janelas e ele não iria fechá-las mais tarde.

Nervosa e cansada com as reclamações de sempre fui falando:

– Eu já havia lhe dito que iria ao cinema no centro da cidade. O filme é de duas horas, mais os transtornos para conseguir pegar um táxi fizeram com que demorasse um pouco mais. Quanto às janelas, quase todos os dias você as fecha lá pelas quatro horas da tarde. É um horror! Fica tudo escuro em plena luz do dia. Eu já te pedi milhares de vezes para deixar que eu as feche após as seis horas.

Ele nervoso, me olhou firme e disse:

– Depois não me venha pedir para ajudá-la. Quando sou útil, você me chama a atenção, como se eu estivesse fazendo uma coisa errada.

Eu ia retrucar, mas percebi que estava ali discutindo com o meu marido por algo que já virou rotina nas nossas brigas. Acabara de assistir a um filme tão interessante, porque estragar a tarde com brigas tão tolas.

Tirei os sapatos e senti um alívio de não ter mais nada me apertando. Sentei no banquinho em frente a penteadeira e comecei a passar calmamente os dedos nos meus cabelos. Acaju, bonita cor a que eu escolhi para esconder os meus cabelos brancos. Desde nova os fios brancos teimam em aparecer. Já os tingi de preto, loiro, marrom, castanho e só depois dos cinquenta anos é que descobri a cor ideal que combinasse com o meu tom de pele. Gosto também do corte, curto e elegante. Quanto ao meu corpo, ele é bem delineado, sei que deixo muitas moças e senhoras se ardendo de inveja das minhas pernas, sem nenhuma celulite e do meu manequim quarenta e quatro de curvas fartas. Há pouco tempo uma amiga me falou que eu escondo atrás da minha elegância um mundo de frustrações.

Agora, olhando o meu rosto refletindo no espelho penso nas palavras dela, acredito piamente que ela tem toda razão. Sou uma frustrada, fantasiada de vitoriosa, angustiada com a minha própria angústia. Queria ter feito tudo diferente, ter tido coragem de seguir nos estudos, ter procurado andar com os meus próprios pés sem depender dos outros, ou seja, do meu marido. Não sou a única que faz esse tipo de reclamação, mas desde que me conscientizei da minha sina, sinto essa angústia no peito.

Lembro-me que falei para o meu marido que queria estudar, ele alegou que eu deveria cuidar das crianças, elas não poderiam ser educadas por empregadas. Desistir sobre pressão. Alguns anos mais tarde quis novamente continuar os meus estudos, novamente um não, justificou dizendo que eu era mais útil cuidando da casa e da família. Vencida, enterrei os meus sonhos de estudar e ter uma carreira, de fazer algo que realmente me desse prazer.

Sempre fui dependente, principalmente de minha mãe, mulher possessiva e fiscalizadora. Casei-me aos dezoito anos com um homem viúvo dezoitos anos mais velho do que eu. Tive cinco filhos, sendo que a mais velha me matou de tristeza quando faleceu, um pedaço de mim foi com ela.

Sempre a disposição dos filhos, marido e pais, nunca me sentia dona de mim mesma, apesar de geniosa, sempre fui submissa à família e aos meus pais, característica de filha única.

Sonho com uma vida que sei que não terei. Viajar pelo mundo, respirar outros ares, mas como? O marido não tem pique para acompanhar-me. Vou sozinha ou com amigas a teatros, shows e cinema, me sinto viúva de marido vivo. A diferença muito grande de idade é uma merda. Parece que estou engessada, incapacitada de andar, só os pensamentos vagueiam descontrolados, perdidos e carentes de ação.

Quantas vezes ao ser apresentada a alguém perguntam se o meu marido é o meu pai. Ele finge constrangimento, mas depois sorri discreto. Percebo que ele, por ser mais velho, sente-se vaidoso em desfilar comigo como se carregasse um troféu, mas ao mesmo tempo ele se comporta como um pai, como se eu fosse uma jovem tola e dependente que precisa ser paparicada, e, ao mesmo tempo, dominada.

Hoje consigo me rebelar um pouco, acham que é da idade. Sinto como se houvesse um grito abafado me oprimindo o peito. É uma sensação estranha, como se tivesse medo de ser ouvida e as pessoas não entendessem o meu lamento. Culpa minha que me deixei dominar, me entreguei com medo de me aventurar e de me libertar das correntes que eu própria criei. Vejo que envelheci sem ter sido eu mesma, de ter vivido em função da família e me esquecido de mim, de ter deixado o tempo passar, e o que me resta é um vazio dentro da alma.

A fala da Heide nos deixou abaladas, gostaria de abraça-la e falar palavras de conforto, mas o que foi acordado era que não haveria nenhuma manifestação naquela sessão, pois essa seria a fala que está entalada na garganta de cada uma e precisava ser libertada sem interrupções ou reflexões. Aline pede a palavra, o grupo procura se acalmar para ouvi-la.

Parte 6

Muitas aqui não me conhecem, me chamo Aline, mas gosto que me tratem por Lili. O que vou contar para vocês pode deixá-las chocadas, mas talvez encontre aqui ajuda que me leve a entender sobre os meus devaneios.

Sou de uma família humilde que morava na periferia. Tenho seis irmãos e com muita dificuldade estudei e me formei em contabilidade em uma boa universidade. Sempre fui muito desinibida e gostava de me divertir. Na faculdade, comecei a namorar vários rapazes e dentre eles o meu ex-marido. Nessa época, percebi que não só os homens me olhavam com desejo, mas também as mulheres. Uma amiga começou a me assediar, eu gostava de homens, mas a curiosidade do desconhecido me levou a ter um caso com ela.

Achei bom, gostei, porém nessa época tive vários dissabores em relação ao amor. Conheci homens que me encheram de ilusão e mulheres que machucaram o meu coração. Acumulei amarguras, fiquei fragilizada e decepcionada em relação ao futuro. Meu comportamento mudou, passei a tratar os homens como objetos e com as mulheres fazia o jogo da sedução.

Casei com um engenheiro e tive dois filhos, mas continuava me sentindo sexualmente insatisfeita. Durante os vinte e poucos anos de casada, traia o meu marido com homens e mulheres. Com o tempo passei a me relacionar mais com mulheres.

O meu marido sempre desconfiou, mas como eu era uma ótima esposa, tanto na cama como para a sociedade, ele fingia que não via, principalmente porque sabia que não corria risco de eu o deixar por uma mulher.

Ledo engano, uma me tirou do sério e me arrastou para os seus braços, para a sua casa e me fez sentir amada e protegida. Consegui convencer os meus filhos que a minha felicidade estava acima de todos os preconceitos, eles sabiam e sentiam que eu não era feliz com o pai deles. Sofremos juntos quando falei da minha decisão de separar e de ir morar com uma mulher. Não foi fácil, depois de muitos choros e reflexões sobre amor, felicidade e descriminações, me apoiaram.

Alguns dos meus irmãos me condenaram, não levaram em conta que durante todos esses anos eu os amparava financeiramente e espiritualmente. Conhecidos se acharam no direito de me julgar, de me taxarem de leviana, depravada, mas ergo a cabeça e sigo em frente.

Continuo a trabalhar com o meu ex-marido na empresa onde somos sócios. Por incrível que pareça ele ficou do meu lado, mesmo mudo e angustiado não me atirou pedras, ao contrário, agiu com correção na separação dos bens, e hoje continuamos, como sempre, bons amigos.

Quando casados sempre nos demos bem. Eu o enchia de mimos, mas na cama ele desempenhava mal o seu papel, parecia distante, sem grandes entusiasmos. Esforçava-me para agradá-lo, afinal ele era o pai dos meus filhos, um homem de bom coração que me aceitou sem restrições. Quanto às diversões, ele também não gostava de sair, de dançar, ir a um cinema ou viajar. O seu prazer era trabalhar, trabalhar e trabalhar, e quando chegava em casa ia direto para o sofá da sala e dormia assistindo televisão. Perdemos a intimidade e passamos a ter uma amizade quase fraternal.

Com a minha companheira encontrei o prazer, o entusiasmo para a vida, o desejo de romper barreiras e de ser cada dia mais feliz.

Hoje me dedico como voluntária em um hospital, onde procuro ajudar as pessoas doando palavras, carinho e conforto. Ajudo me ajudando, pretendo nesses encontros entender mais de mim e das pessoas ao meu redor. Sei que é difícil para alguns compreenderem o que fiz. Acredito que esses encontros irão me ajudar a acalentar o meu coração e me fortalecer para superar os preconceitos e os desafios que terei pela vida.

Laura sorri timidamente e pede a palavra.

Parte 7

Sou solteira, tenho mais de cinquenta anos e me sinto desiludida e sem energia para encontrar um novo amor. Atualmente não tenho namorado fixo e nem flutuante. Estou só, absolutamente só. Isso não é privilegio meu. A maioria das minhas amigas está vivendo na mesma solidão. Algumas já foram casadas e outras, como eu, nunca tiveram a experiência de morar com um companheiro.

Tento achar que isso não importa. Bato na tecla que é melhor estar sozinha do que mal acompanhada. Corro risco de, com receio de não tentar, com medo de ousar, ficar sem história, sem memórias e sem a oportunidade de encontrar um verdadeiro amor.

Tenho amigas que entraram em uma furada, mas acharam que valia a pena o risco e se iludem para não ficarem a sós. Posso dar o exemplo de uma moça que foi amante de um rapaz por dezoito anos. Durante todo esse tempo ele prometia que, um dia, se separaria da mulher. Entretanto, com o passar do tempo, ela compreendeu que os tão sonhados finais de semana e festas comemorativas não aconteceriam com a presença dele, como sempre desejou. Restavam somente alguns encontros fortuitos durante o expediente de trabalho e umas poucas e inesquecíveis viagens de negócios a dois.

Durante esse período ele teve três filhos. Ela queria ter uma filha, fruto desse romance clandestino. Isto não aconteceu, porque ele não concordou, deixando-a ainda mais frustrada.  Quando a esposa adoeceu de câncer, pasmem! A minha amiga torcia para que ela morresse. Queria ocupar o seu lugar o mais rápido possível.

Há um mês, encontrei-me com ela em uma festa de comemoração dos dez anos de casamento de sua tia. O mais interessante era que a tia tinha sido, durante aproximadamente vinte anos, amante do atual marido. Casou-se com ele após a morte de sua mulher.

Perguntei-lhe se ainda estava namorando o homem casado e ela contou-me que, quando a mulher dele morreu, ele lhe deu um fora. Não quis saber mais dela.  Por fim, falou que estava de rolo com outro sujeito comprometido. Acreditava que em breve ele iria largar a mulher para ficar com ela. Pura ilusão.

Falo isso porque até essa migalha de amor eu estaria disposta a aceitar. Tenho inveja da minha amiga, apesar de saber que ela se ilude. Pelo menos ela tem alguém para abraçá-la e beijá-la, mesmo que seja a conta gotas.

Também tem um caso de uma conhecida, desquitada. Quando ela conhece um sujeito, se entrega por inteiro. Não dá outra, após o affair, recebe um chute no traseiro. Não tem retorno dos telefonemas e mensagens. Isso eu não quero para mim.

Ando com uma amiga que vive de recordações. Conta e reconta mil vezes histórias de quando namorou fulano e sicrano. Porém mal me lembro do último, pois já se passaram duas décadas. Ela sempre deixa o baú de recordações aberto à procura de fotos velhas e cartões amarelados. Vive presa ao passado, sem se abrir para o presente.

A solidão da alma e do corpo é muito grande. Saber que eu estou envelhecendo e não tenho ninguém por perto faz o meu coração se encher de angústia. Os meus pais já se foram, os meus irmãos têm as suas próprias famílias. Então vem o baque, você descobre que a sua sina é ter como companhia você mesma. Em parte é bom, mas tem horas que bate um vazio enorme.

O vácuo me assusta, o oco do nada ter, não em bens materiais, mas em afetos, me angustia. Hoje tenho amigas que estão no mesmo barco. Somos solidárias, nos divertimos e curtimos a vida. Amanhã poderei estar remando sozinha, o que é o mais provável. Gostaria de contar com um companheiro para compartilhar, sorrir, chorar, amar e admirar. Esse tempo preenchido a dois seria o ideal.

Tento não pensar que estou só. Tento levar a vida de forma mais leve, mas sempre estou esbarrando em casais, em beijos de novela e em livros de romance, aí desaguo, e volto a me questionar: porque estou só?

Quem me vê acha que estou bem, mas se a lupa atravessasse o meu ser, me enxergaria cheia de dúvidas. Tenho um pacto comigo de tentar ser feliz na minha condição de mulher solteira. Hoje estou aqui para buscar ajuda. Quero aprender a ser mais confiante, tirar as amarras que me sufocam e impedem de abrir para o amor.

– Solitária amiga, também me sinto, falou Tatiana olhando para todas, agora é a minha vez.

Parte 8

Sou uma mulher a beira de um colapso nervoso. Fui casada a mais de vinte anos, me entreguei por inteira. Fiz e desfiz da minha identidade para agradar o meu marido. Ele me deixou, me abandonou. Alegou não gostar mais de mim, que a nossa relação estava desgastada por brigas e discussões.

Não me conformo, fizemos tantas coisas juntas e ele simplesmente diz que cansou. – E os nossos planos? Agora jogo tudo pela janela, rasgo, e fim. Havíamos combinado que ficaríamos juntos, criaríamos os nossos filhos, curtiríamos os netos e, aposentados, viajaríamos pelo mundo.

Sinto-me maltratada, desamparada. Aquele cretino e mentiroso me trocou por outra, uma vadia. Fui atrás dela, e ao vê-la, aprontei o maior barraco na porta do bar e em frente ao prédio onde ele mora.

Prometi-lhe, que faria de tudo para fazê-lo feliz. Supliquei que não me deixasse, e até ameacei me jogar do décimo andar do prédio. Nada o fez voltar para mim. Eu me acostumei com ele. Apesar de nossas brigas constantes, sinto sua falta. Após os desentendimentos, acabávamos nos reconciliando na cama, entre lençóis.

Os meninos acham normal o que aconteceu. Pais de seus amigos se separaram, agora chegou à vez deles. Dizem, brincando, que terão duas casas, e que ganharão mais presentes. Ameaçam morar com o pai, se eu ficar pegando no pé deles. Ninguém apoia a minha solitária empreitada pela reconciliação.

Sei que vocês querem saber por que ele me largou, também não sei. Sempre fui uma mãe exemplar. Cuidava das crianças e da casa com capricho. Às vezes pegava no pé dele para participar comigo das atividades domesticas. Ajudar-me a manter a casa em ordem.

Sempre fui caseira, não gosto de muita badalação. Prefiro ficar em casa. Chego cansada do trabalho, e ainda tenho que colocar as coisas em ordem. Não tinha pique quando ele me chamava para sair. Quase sempre recusava o convite. Claro que ele reclamava, queria que eu fosse junto. Para me provocar, apelava e ia sozinho. Caia na gandaia e só voltava de madrugada. Tentei alerta-lo que estava errado, que tinha que ser mais compreensivo. Deu no que deu, arrumou outra mulher e me deixou aqui a chorar.

Uma conhecida já quis se separar, mas se acomodou com medo de ficar sozinha. Afirma que é melhor com ele aos gritos, do que o silêncio da solidão. As que se separaram de seus maridos, disseram-me, que eles culpam suas esposas por tudo. Alegam, inclusive, que elas deixaram a relação esfriar, que os colocaram de escanteio e só se dedicaram aos filhos.

Eu me incluo no grupo das que cuidavam de tudo, da casa, dos cachorros e das crianças. Eles não pensam que temos jornadas duplas, de horas intermináveis na empresa, mais casa e filhos para cuidar. Egoístas! Pensam somente neles e nas vagabundas que se oferecem por ai.

Fico o tempo todo bolando um plano diabólico para me vingar dele. A estratégia infalível é atacar os ex no que mais gostam. O plano é o seguinte; se ele gosta de CDs – destrui-los; se gosta de livros – estraga-los ou vende-los; se gosta do sítio – lutar até a última gota para tomar dele. Qualquer bem deve ser passado para os filhos, e deixa-lo, dentro do possível, sem nada.  Quero que a minha vingança se consolide através dos meus atos maquiavélicos para destruí-lo, enfraquece-lo, leva-lo a loucura ou ao enfarto.

Ele acabou comigo, olhem para mim, estou um caco, pareço dez anos mais velha, destruída física e psicologicamente, tudo por causa dele. Eu o considero um ladrão de sonhos, um traidor que me despedaçou e me atirou no fundo do poço.

Essa sou eu, uma Tati cheia de rancor e de dor no coração. Peço ajuda, pois estou enlouquecendo de ódio e de mágoa. Conto com vocês para me ajudarem a encontrar a paz.

Parte 9 

Estava ansiosa para começarmos, pois o primeiro encontro foi marcado por revelações que me deixaram pensando, exaustivamente, toda a semana. Finalmente demos início a nossa caminhada, queria ver o que aconteceria, como agiríamos, e se daríamos conta se seguir a nossa jornada.

Às dezessete horas estávamos a postos, mas ninguém se manifestava. A terapeuta Diva propôs que escolhêssemos um tema e falássemos sobre ele. Começaria por Heide, que estava à direita da roda.

– O meu tema é frustração, falou Heide com nó na garganta. – Sou uma frustrada em potencial e gostaria que falássemos sobre isso. Sempre tive vontade de ser e de ter, nada fui e nada construí para mim. Tenho um casamento monocromático e filhos que poucas alegrias me dão. Casei muito jovem, cheia de sonhos e fantasias, e a cada filho que nascia mais obrigações e frustações. Doei-me para eles, cuidei da alimentação, dos estudos e da educação. Era muito rigorosa, cheia de castigos, gritos e punições.

Acho que os fiz adultos de respeito. Dei o amor que podia dar, e não acho que eles retribuíram esse amor da forma que eu gostaria. São individualistas, acredito que não gravito no universo deles. Sou dona de casa, não estudei e nem trabalhei. Sinto que a minha vida passou e eu nada fiz por ela. Agora, só me restou desilusão. Não tenho sonhos e nem desejos, só amargura e frustação.

– Eu também me sinto frustrada, fala Valeria cruzando as pernas e as enlaçando ao redor dos pés. – Sou frustrada por que não tive coragem de ter o meu filho, fui covarde e o arranquei do meu ventre. Quando vejo meninos da idade dele, pego a me beliscar, a me ferir. Se pudesse, eu me espancaria com arame até sangrar. Sinto-me frustrada por ter sido rejeitada, enganada e abandonada. Ele me fez retirar a criança, e o que recebo em troca é sexo esporádico dentro de um banheiro em um quarto de empregada.

– E quando a gente é abandonada, depois de anos de dedicação, e o cara alega que cansou, enjoou e quer ser feliz com outra, eleva a voz Tati com entonação de rancor. – É como se o amor tivesse data de validade. Ficou gasta e rançosa a relação, não dá mais para o consumo. Cuidado! O casamento deve acabar antes que envenene o casal. Eu me dei por inteira e ele pela metade. Sinto-me frustrada, logo agora que poderíamos usufruir e aproveitarmos juntos, ele me larga com dois filhos e um cachorro. Ordinário, quero vê-lo debaixo da terra com as outras.

– E eu que fui abandonada e estou só novamente. Quase toda a minha vida andei sozinha a espera de alguém que nunca bateu na minha porta, diz Laura com os olhos baixos. – A minha vida toda foi de sonhos e desejos jamais vividos. Sou frustrada por não ter tido um filho, por ter sido ignorada pelos homens, por não ter tido a coragem de ser mais ousada e investido no homem que amei. Gostaria que qualquer um me olhasse com interesse, que desse sinal de que eu não sou um ser imperceptível. Sei que ainda sou nova, que apesar dos cinquenta anos posso ter alguém ao meu lado. Porém quem quer uma mulher que se olha no espelho e não se vê?

– Olhem para mim, me acham linda, produzida, elegante e cheia de dinheiro, mas no fundo sou frustrada, diz Katia quase chorando.- Tenho tudo, ou quase tudo, mas dentro de mim é como se nada tivesse. O meu casamento é de faixada, mentira pura. Desfilamos como um casal vinte, belos e vazios. Tenho os meus amantes que servem para aliviar a minha dor, para me vingar do meu marido traidor. Não sei o que é ser um casal feliz, vim para ter e não para ser. Não tenho como voltar atrás, depois que adquiri bens e conforto. Não me arrisco a sair da minha zona de conforto. A minha sina é viver com a minha frustração de não conhecer o verdadeiro amor.

– Eu encontrei o amor, só que ele é visto como pecado, o que me frustra muito, disse arfando Lili. – Os invejosos declaram aos quatro ventos que os meus familiares devem se sentir envergonhados pela minha escolha. A minha felicidade é arrancada, despedaçada pelos olhares de reprovação, por línguas que me condenam, por pessoas que no fundo não sabem o que é o amor. Sinto uma frustração enorme por não poder demonstrar esse amor abertamente, pois duas mulheres que se beijam ainda causam estranheza e críticas ferozes.

– E você o que diz sobre frustração?, fala Diva me olhando nos olhos.

– Acho que todas nós carregamos algumas cargas de frustrações durante as etapas da nossa vida, falo olhando para as minhas amigas. – Frustrações por não termos conquistado alguém em especial, por não termos conseguido aquela promoção ou o emprego desejado, por não educarmos os nossos filhos como desejaríamos, por não termos isso ou aquilo, e, finalmente, por nos sentirmos tão sozinhas, desamparadas, angustiadas pela vida complicada que nos embaraça a mente, prende nossos movimentos e nos sufoca, deixando-nos sem rumo.Sinto-me frustrada pelo inacabado, por pensar que poderei morrer de repente e não concluir os meus projetos de vida.  Tenho sonhos grandes, talvez impossíveis de serem alcançados, desejos reprimidos, me frustro por não saber nem onde começar.

– Acho que o deixar para depois, é o que nos imobiliza, fala Heide olhando o quadro na parede. – A frustração vem quando ficamos reclamando da vida, sem coragem de começar, e sempre deixando para depois. Ficamos inertes, nada de nos movermos. Achamos que não somos capazes ou que o nosso tempo já passou.

– Muitas culpam o destino, afirma Valéria. – Quem paga o pato é o carma. Mas, a causa da frustração está em nós, no nosso não fazer, no nosso não acreditar, na nossa fraqueza, na nossa falta de coragem de romper com nós mesmos.

– Somos cercados de pessoas frustradas, desacreditadas, fala Tati. – Somos o reflexo do nosso meio. A minha mãe sempre se dizia frustrada por não ter tido uma casa grande em um bairro nobre, então culpava o meu pai. Meus irmãos achavam que não tinham empregos bons, porque não estudaram em excelentes colégios e, rancorosos, culpavam o meu pai. A frustração estava diretamente relacionada à incapacidade deles de superarem obstáculos, e de construírem os seus próprios destinos. Inconscientemente transferiam as suas frustrações e mágoas para o meu pobre pai, que tinha que carregar a cruz da incompetência deles.

– Reconhecer as nossas frustrações e tentar entende-las exige de nós muita lucidez, aparta Diva. – O mais importante é entender a razão e o porquê desse sentimento que nos corrói por dentro.  Analisar as nossas falhas e o que levou o outro a falhar com a gente. É desfazer os nós aos poucos, liberando cada laço que nos aperta e nos sufoca.  Analisar as frustrações que teceram esse manto pesado sobre os nossos ombros requer paciência, equilíbrio emocional e muita cautela para não se magoar ou magoar os outros. Devemos pensar sobre as nossas frustrações essa semana. Tentar, dentro do possível, desfazer pacientemente cada nó. Devemos listrar as nossas frustrações, analisá-las, e ir aos poucos as eliminando.

Parte 10

Valeria pede a palavra no terceiro encontro: – Fiquei pensando qual seria o tema que abordaria nesse encontro. Não fugiria ao que mais gosto de fazer: sexo! Sou vidrada em sexo, principalmente com quem eu tenha afinidade intelectual, mas se não aparecer um de cuca boa, pego o que estiver disponível para me saciar. Pareço leviana, mas é uma vontade carnal que vai além do meu bom senso.

– Já fiz sexo em quase todos os lugares possíveis e impossíveis – Valeria continua a falar em bom tom. Como falamos sem censura, preciso desabafar algo que fiz nos meus momentos de loucura, mas que me incomoda até hoje.

Um dia estava viajando para São Paulo de ônibus quando sentou ao meu lado um rapaz ajeitado, simpático. Começamos a conversar e vi que era do bem. Na primeira parada do ônibus fomos lanchar juntos e ele pegou em minha mão com carinho e a beijou. Senti um arrepio por todo o meu corpo e procurei me controlar.

Já era noite e ele sugeriu fechar a cortina para ficarmos mais a vontade. Quando comprei a passagem fiquei fula da vida, porque a minha cadeira ficava na ultima fileira do ônibus próximo ao banheiro, viajaria trepidando a noite inteira. Mas depois que ele fechou a cortina, achei que o lugar seria o ideal para o que estava na cara que iria acontecer.

– Ele começou passando a mão pelos meus seios e os apertando com carinho, brincando com os bicos até eles ficarem durinhos. Depois abriu a minha blusa e os sugou com vontade, beijava-os e aos meus lábios também. Suas mãos foram ficando mais ousadas e desceram para a barriga. Como eu estava usando uma calça de cós de elástico, ficou mais fácil para ele percorrer o caminho para o meu sexo, comprimindo-o, apertando-o entre os dedos e me deixando excitada e com muito desejo.

Fizemos sexo silencioso, gostoso, sem atropelos, só prazer. Não perguntamos os nossos nomes, e quando chegamos na rodoviária, ele me deu um beijo de despedida. Segui-o com o olhar e o vi indo de encontro a uma garota, abraçou-a carinhosamente e lhe deu um beijo de cinema.

– Que tipo de mulher eu sou? Pensei, enquanto me sentia sufocar de angustia e solidão. Sou assim, desarvorada, inconsequente e transgressora.

– Sexo para mim foi só com o meu marido, disse Heide. – Casei nova, minha mãe sentia vergonha de falar sobre sexo, ou seja, o meu primeiro contato foi na lua de mel. Não foi ruim, mas poderia ter sido muito melhor. O meu marido gostava e me ensinou a gostar também. Envergonhada, não tive coragem de falar sobre sexo com as minhas filhas, mas elas eram de uma geração mais avançada, mais ousada, inclusive uma casou grávida, quase matando o pai de desgosto.

– Com o avanço da idade, passei a não querer mais, inclusive propus ao meu marido dormirmos em camas separadas, ele aceitou a contra gosto. Mas o sexo não morreu para mim, continuo ligada.

– Estranho! Não quero com ele, mas continuo tendo desejos – murmura Heide, como se estivesse com vergonha de se expor. – À noite procuro na TV canais que falam sobre sexo ou que passam filmes apimentados. Gosto de assistir, de ver casais transando, me deixa excitada, mas ao mesmo tempo não quero fazer sexo com o meu marido. Tenho um pouco de sentimento de culpa, parece que quero castiga-lo, mas não está em mim, acredito que se fosse com outro homem me entregaria a ele com prazer.

– Parece loucura, suspira Heide, mas não quero fazer o que fiz esses anos todos: sexo morno, monótono. Tentei algumas vezes variar de posição, mas ele não topava, dizia gostar do básico. Contaram-me que, quando ele viajava a negócios, pegava mulheres da vida. Fiquei frustrada, queria experimentar novas sensações, mas ele era irredutível, só papai e mamãe. Então perdi a vontade. Não me sinto velha para o prazer, juro, meninas! Ainda tenho desejos reprimidos, vontade de ter uma noite quente de muito sexo, evidente que não seria com ele.

– Sexo para mim tem que ser quente, profundo. – fala Lili com um sorriso safado nos lábios. – Também gosto muito, gostava com homens, mas depois que conheci o sexo com as mulheres, passei a gostar mais com elas. Sei deixar os homens malucos, aos meus pés. Ajo como uma gata safada, dengosa. Gata usa a língua para se lavar, eu a uso nos homens para enlouquecê-los, a minha é poderosa, percorre os caminhos que eles mais gostam, com prazer e gula.

Gosto muito dessas preliminares, vejo em seus rostos as transformações, os delírios, os desejos. Quando ficam exauridos, deixo que me amem com vontade, com garra até o gozo final.

– Em relação às mulheres, dá um sorriso maroto e diz – sinto como se eu estivesse em alfa, é mais singelo, saboroso. É como uma música clássica, em que a melodia começa suave, vai acelerando, chega ao clímax e recomeça novamente, deixando-nos flutuar em cada nota.

A diferença é que nós mulheres sabemos o que gostamos. Procuro agradar a minha companheira e sei onde deixá-la louca de prazer. Sou delicada, percorro o seu corpo na busca de sensações, sei cada ponto G, cada sensação, delírio e gozo. Sei como deixá-la dominada, e também como deixá-la faminta, gulosa e dominadora.

– Sexo para mim foi uma transição entre o bem e o mal. – declara Tati calmamente. Fui educada em uma escola de freiras e preparada para casar virgem, como a maioria das jovens da minha época. Encontrei no meu marido todo o carinho e paciência que um homem pode ter com uma mulher inexperiente. Foi bom até o nascimento do ultimo filho. Fiquei cansada, exausta e desinteressada por sexo. Ai que eu errei, deixei o meu marido solto para novas aventuras, quando acordei já era tarde.

– Quando ele me largou,  enlouqueci, caiu a ficha. Fiz de tudo para trazê-lo de volta, me humilhei, armei barraco e me transformei em um trapo humano. Em um desses acessos de loucura, quando fiz um escândalo em um bar, derrubando copos e o agredindo verbalmente, fui contida por amigos que me retiraram do local aos gritos.

Depois, transtornada com o que havia feito, parei o meu carro em um bar e fui tomar uma cerveja para me acalmar. Um grande amigo, que foi padrinho do meu casamento, começou a me paquerar. Sabia que ele era casado e conhecia a sua mulher, mas não sei o que deu em mim e resolvi ir em frente, talvez por vingança. Sim, foi por vingança.

– Paramos em um motel e ele me serviu uma bebida mais forte. Tinha contado para ele, que havia mais de um ano que não transava. Um fogo foi tomando conta de mim e o ataquei sem piedade. Fizemos sexo na cama, no chão, no sofá e quando ele tentou se desvencilhar de mim, fui atrás dele no banheiro e o ataquei como uma fera faminta.

Quando amanheceu notei que o rapaz estava detonado, esfolado sobre a cama, e eu sentia o corpo todo doendo e ardida.  Pedimos café, trocamos meias palavras e nunca mais o vi. Assustei o cara e me assustei com a minha ousadia. Gostei de transgredir, vi que era capaz de fazer sexo com outro homem, foi uma vingança saborosa, espero que chegue aos ouvidos do meu ex o quanto a mulher dele é fogosa. Depois dessa noite estou novamente a seco, meses sem sexo, sem emoções.

– Falar de sexo para mim é falar também de vingança, desforra. – fala Kátia entre dentes. É me vingar do meu marido que me afronta carregando secretárias e prostitutas em suas viagens de negócio. Hoje ele não fala mais que sou fria, ao contrário, gosta do que faço com ele, mal sabe que a minha desenvoltura vem dos treinamentos com os meus colegas de trabalho. Tenho um fixo, mas às vezes me divirto com um fora do esquema.

A última vingança foi bizarra.  Fomos a uma festa na empresa do meu marido, era despedida de ano. – No final da festa estavam todos bêbados, menos eu, que não gosto muito de álcool. Vi quando o meu marido investia em uma moça loira, que havia entrado para a empresa a pouco tempo, eles trocavam olhares e encontros. Surpreendentemente, ele teve a cara de pau de falar que me deixaria em casa e iria com os amigos tomarem o último trago.

Não aceitei que me deixasse em casa. Então, o vice presidente, amigo do peito do meu marido, vulgo ”garanhão dos garanhões”, se prontificou a me levar. No carro ele tentou me consolar, alegou que o meu marido era um imbecil por me tratar dessa e daquela forma, pois eu era uma mulher bonita e sensual. Agradeci os elogios, para ele foi um sinal para me levar a um motel. Tudo bem, porque não me vingar transando com o alto comando?

– Cai em seus braços sem nenhum interesse, só por desforra. O cara beijava- me, abraçava-me e nada de sentir o seu volume, procurava por debaixo de uma banha solta que cobria a barriga, e nada. Pasmem! O cara tinha um toquinho, o lindo e grandioso amigo do meu marido, que pegava todas, tinha pouco para oferecer. Dei uns beijinhos de consolação nele, me vesti e fui para casa. Vinguei-me do meu marido e do garanhão metido a conquistador.

– Como já falei para vocês, pouco experimentei do sexo. Fala timidamente Laura, mas guardo na memória uma pessoa especial que surgiu e foi-se como um sopro na minha vida. Ele era o pai de um funcionário da empresa. Não sei como, conseguiu o meu telefone e sempre me ligava insistindo para sairmos. Não topava porque sabia que era casado e o seu filho era meu amigo. Tanto me procurou que acabei indo para jantar com ele. Contou-me que havia se separado da mulher e que mudara de casa.

– Estava só, deprimida e os galanteios dele me deixavam envaidecida e me sentindo desejada. Uma noite ele me levou a um apart hotel para tomarmos uns drinks. Preparou tudo com requinte, champanhe, flores, bombons e beijos. Quando vi, estava tremendo em seus braços, ele me acariciando o corpo com carinho e me mostrando o quanto o sexo é bom. Foi como em um sonho, passamos a nos encontrar todas as semanas, ele me cobrindo de dengos e eu o cobrindo de amor.

– No meu aniversário, ele me levou a um hotel e me pediu que entrasse no banheiro e esperasse ele chamar. Quando entrei no quarto a cama estava coberta de pétalas de rosas e de chocolates em forma de coração. Ele me enlaçou pela cintura e me colocou sobre as pétalas, depois as jogava sobre o meu corpo e as tirava com a boca. Fizemos amor horas seguidas, depois ele me mostrou que ainda sobrou um saco com pétalas de rosas. Fomos para o alto de uma serra e de lá jogamos as pétalas que voaram enfeitando as matas.

– Era como se eu estivesse vivendo um filme de amor, mas o fim foi triste, ele sumiu de repente. Eu não tinha coragem de ligar, procurei o filho dele e este estava de férias que duraram longos e angustiantes dias. Quando ele voltou, me contou que o pai havia operado da coluna, e que a família estava aflita aguardando a sua recuperação.

– Uns dois meses depois recebi um telefonema dele. Contou – me sobre a doença, da angustia dele e da dedicação dos familiares. Pedia desculpas, mas naquele momento precisava ficar só. Sofri terrivelmente, ele era o meu príncipe encantado que adoeceu, e que se foi sem me dar uma oportunidade de eu cuidar dele, de estar ao seu lado na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

Passaram-se três anos e nunca mais nos encontramos. Fiquei sabendo que ele recuperou a saúde. Disseram-me que ele mudou para o exterior com a médica, que foi a sua namorada do colegial. Foi tudo tão intenso e rápido que, às vezes, penso que não existiu de verdade, tudo não passou de criação da minha imaginação.

– Laura respira fundo e continua. – Sexo para mim é alimento para o corpo e para a alma. Quando estou nos braços do homem que gosto me entrego por inteira. Sinto prazer quando ele me toca, gosto das sensações, dos arrepios, das vibrações e do tesão  insaciável.

Lembro-me da vez em que fui abandonada, me sentindo péssima e querendo desistir de amor e sexo. Uma amiga da minha mãe, viúva, me disse que eu jamais deveria sublimar o sexo. Segundo ela, após o marido morrer, nunca mais teve outro homem. Falou que foi o maior erro de sua vida, pois amar, fazer sexo e ter alguém que goste ao seu lado faz parte da vida de uma mulher, logo eu não podia abrir mão de ter novos amores. Caso um partisse, deveria abrir meu coração para outro amor.

O que ficou mais marcado na memória, foi ela falar que quanto mais tempo você fica sem fazer sexo, mais você sublima. É como se vivesse em um filme, em que só os atores principais fazem amor, e você passa a ser um mero coadjuvante, sem interpretar o papel principal.

Ai é que está o risco, o tempo passa e você, mesmo não gostando de ficar só, vai levando e perdendo forças, e, por fim, acha que a vida está melhor sem homens para atazanar o nosso dia a dia, que é melhor ficar só do que mal acompanhada e, assim, vai justificando a sua falta de tesão..

Segui a risca o conselho dela, bati muito a cabeça na parede, errei, mas também tive acertos e, hoje, procuro alguém que além de ser um companheirão me satisfaça plenamente no sexo. Sexo deveria fazer parte da lista de remédios de uso contínuo, às vezes me pego rindo quando me imagino bem idosa fazendo sexo.

Dias atrás, eu vi na TV uma prostituta de setenta anos dizendo que faz sexo desde os quinze anos, e que só irá parar quando ninguém mais a quiser. Afirmou que ainda tem clientes fixos, e que morreria de tristeza se parasse agora, pois tinha planos de viver mais vinte anos na esbornia.

Falamos sobre frigidez, o que gostávamos no sexo, fantasias e, por fim Diva encerrou dizendo que sexo é saúde, desde que você aceite e queira fazer de acordo com os seus princípios e desejos. Os limites quem determina somos nós, romper com regras e padrões de comportamento cabem a cada um, de acordo com os seus desejos. Por fim afirmou que devemos nos permitir mais, e fazer do sexo não uma arma, mas sim momentos de prazer e satisfação.

Parte 11

Abandono, esse é o tema de hoje – diz Tati quase suplicando ao grupo que o aprovasse. Ninguém se manifestou e ela continuou. – Vocês já sabem que fui abandonada pelo meu ex-marido, aquele ingrato, crápula e desleal. Não consigo deixar de pensar nele um só minuto, lembro-me dele e tenho ódio, raiva e indignação. Como pode ter me abandonado quando ainda estava com as crianças em fase de crescimento? Como pode ter me deixado só com esse fardo todo? Como pode ter deixado de gostar de mim, quando eu me transformava em dona de casa, empregada e esposa? Como pode achar que ficaria bem sozinha e desamparada? Como pode me substituir por qualquer uma?

– Quero me vingar dele, já pedi na separação tudo o que tinha direito e o que não tinha. Quero atazana-lo, infernizar a vida dele, tirar o seu sossego. Quando ele saiu de casa falou que levaria só a roupa do corpo para se vir livre de mim. Pequei no armário dele todas as suas roupas finas e importadas e doei para um asilo. Escondi toda a sua coleção de CDs no sítio do meu pai. Rasguei todas as fotos em que estávamos juntos, e já estou fazendo a cabeça dos meninos para ficarem com raiva do pai.

– Questiono-me a cada dia, a cada hora, a cada minuto tentando achar respostas para o meu abandono. A dor é grande e o ódio é maior. Estou me corroendo por dentro e me destruindo por fora. – Vejam o meu estado – grita Tati para o grupo. – Estou aqui porque estou à beira de um colapso. Muitas vezes desejo matá-lo e depois suicidar. Tento ser racional, mas não consigo, tento entender, mas não acho respostas. Quero que me ajudem a encontrar equilíbrio para sair inteira dessa fase tão amarga da minha vida.

– Não sei se é através de vinganças que encontrará o seu equilíbrio – fala Heide, pausadamente. Quando nascemos somos abandonadas nesse mundo, uns nos rejeitam e outros nos acolhem. Sofremos vários abandonos durante a nossa vida, ainda criança no jardim os colegas nos trocam por outros, abandonamos e fomos abandonados por namorados, amigos e familiares. É difícil e sofrido lidar com o abandono.

– Perdi uma filha que resolveu abandonar esse mundo. Ela se foi achando que seria mais feliz em outro plano. Abandonou a sua vida jovem, porque se achava cheia de problemas e sofrimento. A dor que ela deixou foi muito grande, uma saudade enorme e solitária.  Essa dor de abandono amplia quando somos incapazes de perceber que o outro estava de partida, que ele iria romper com você e com a vida, te deixando desamparado na sua dor de não perceber qualquer sinal. Já me condenei, me culpei, me martirizei por ter falhado como mãe, mas a partir do momento em que tive como resposta que a doença foi a causa da sua ida, me ajudou a entender o porquê dela ter nos abandonado tão na plenitude de sua juventude.

Todo abandono tem uma causa e uma consequência. Para saber precisamos ir a fundo, procurar a causa, mesmo que ela nos atinja o coração em cheio. Necessitamos dessa resposta para sobreviver e irmos corrigindo nossas falhas e errando menos.

– Sei de tantas histórias de abandonos que acabam mal, que uso desse argumento para não me envolver e ser abandonada novamente. – declara Laura. Tenho uma amiga que foi amante de um cara durante vinte e tantos anos, quando ele ficou viúvo se casou com outra após seis meses. Alegou que a estava abandonando para lhe dar oportunidade de encontrar um cara melhor do que ele.

– Muitas vezes não queremos ouvir as respostas mais óbvias com medo de sairmos feridos e, com isso, prorrogamos os nossos sofrimentos e perdemos boas oportunidades na vida. Como esse caso, existem muitos parecidos que acabam mal, porque começaram mal. O abandono era carta marcada, mas muitos querem blefar e acabam perdendo o jogo.

– Abandonei meu marido e os meus filhos por um louco amor, em contrapartida fui abandonada por meus irmãos e desprezada pelo meu pai. – desabafa Lili ao grupo. Na verdade eu e o meu marido fomos abandonando um ao outro lentamente, ano após ano.  Havia entre nós um buraco vazio de amor, só conseguia vê-lo como um amigo querido. Era o único sentimento puro que ficou da nossa relação. Eu o traia com outros e outras. Ele me abandonava, me deixava de lado por uma tela de TV, que era ligada após a sua chegada em casa e desligada quando roncava no sofá.

– Ele era neutro em relação ao sexo, demonstrava pouco interesse, parecia uma obrigação. Para ele, o simples gesto de ligar a TV e ficar ouvindo baboseiras já o satisfazia. Para fazê-lo me acompanhar em um restaurante ou em festas de amigos e familiares, eu tinha que implorar, o que nem sempre dava resultado. Os nossos dias se resumiam em trabalho e casa, o inimigo cruel do casamento invadiu o nosso lar. A monotonia tomou conta da relação, a mesmice, o previsível, o de sempre passou a comandar o nosso dia a dia.

O companheirismo não existia mais entre nós, apenas amizade.  Esgotada, fui à busca de alguém para conversar comigo e me envolver com o seu corpo quente. Foi ai que encontrei a minha companheira, ela preencheu o meu vazio. Gosta do que eu gosto. Faz questão de estar comigo em todos os lugares. Está sempre preocupada em me agradar e me fazer feliz.

– Moro sozinha e me sinto um pouco abandonada, o que me torna mais desvairada – afirma Valéria. Sempre fui independente. Segui o meu caminho sem interferência dos meus pais.  Tive milhares de amores que me abandonaram e que eu os abandonei.

Ao me abandonarem, recebo críticas sobre a minha forma de viver. Falam que ultrapasso os limites do bom senso. Algo em mim move para essa falta de juízo, de achar que posso e que tenho o direito de usar o meu corpo e o meu saber para satisfazer as minhas transgreções. Quando  percebem que estou a beira de me apaixonar, me largam no meio do caminho,  como se eu fosse contaminá-los com a minha insensatez.

– Abandonei o bom senso uma noite dessas em um restaurante. O meu ficante pediu que eu tirasse a calcinha e a entregasse a ele. Adorei o desafio. Estiquei discretamente daqui, puxei de cá, até entregar-lhe uma minúscula e sexy calcinha. O presente o deixou muito excitado. Tivemos que sair do restaurante antes que ele me devorasse na mesa.

A loucura foi tanta que, ao chegarmos à garagem do prédio, me entreguei como uma gata no cio. Desvairados, subimos os três lances de escadas transando como loucos. A minha sorte foi que ainda não instalaram câmaras nos andares, mas percebi que a vizinha de frente ao apartamento dele estava nos vendo pelo olho mágico.

– Acho que eu abandonei a ilusão de um casamento normal, desabafa Kátia. Vi que para me manter casada teria que abandonar o meu orgulho e os meus conceitos sobre fidelidade e confiança mútua. Tornei-me uma mulher solitária dentro de uma falsa relação sem amor.  O que faz manter o meu casamento é o luxo, o status, as viagens ao exterior, as lojas de grife, e, também, uma vida dupla com homens que não amo.

Abandonei a esperança de amar e ser amada, de acreditar na felicidade a dois, de passear de mãos dadas e dar beijos apaixonados. Acostumei-me, entre aspas, a essa vida, e por isso abandonei meus sonhos de felicidade.

– Já percebi que quando perguntam se sou casada e explico que não, me olham de lado. Às vezes caio na besteira de tentar explicar que é uma opção minha – fala Laura com um sorriso de deboche.  Acham que estou mentindo, que fui abandonada pelos homens. Ao me taxarem de solteirona, me colocam uma marca de solitária, abandonada a sua própria sorte.

Ledo engano! Eu poderia fazer como várias mulheres que eu conheço. Elas, para não ficarem sozinhas, procuram caras de condição econômica inferior ou de nível intelectual mais baixo. Vão atrás de um companheiro, de carinho, de um cara para chamar de seu.

É uma relação difícil, mas muitas abrem mão de encontrar o “homem ideal” que se enquadre nos seus padrões, então partem para os de segunda linha. Algumas se sentem felizes. Realizam o sonho do casamento. Outras se defrontam com a realidade tempos depois. Percebem que caíram na armadilha preparadas por elas. Quando as diferenças ficam insuportáveis e resolvem abandonar o sonho do casamento eterno.

– Ter filhos não nos assegura que não seremos abandonadas na velhice. Hoje o que mais ouço são pais que se veem abandonados pelos filhos. Reclamam da solidão nos finais de semana, de um simples telefonema para saber se estão bem, de chama-los para irem a suas casas ou leva-los para almoçar. Dizem que saberão de suas mortes quando os seus corpos estiverem podres, e os vizinhos os avisarem.

– Lidar com o abandono, é ir de encontro à dor da solidão, pondera Heide.  É ir ao fundo do poço, e depois, se ainda restarem forças, seguir adiante tentando unir os caquinhos. Muitos adoecem e até morrem, mas sempre em nossas vidas seremos abandonados e abandonaremos alguém. Saber se reerguer é o mais desafiador. Fechar a ferida exposta pelo abandono, e deixa-la cicatrizar aos poucos, com paciência, nos amadurecerá e nos fará mais fortes e seguros.

 

(…) continua 

 

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Publicado em 2 de fevereiro de 2016 por e marcado .

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